A instrumentalização da arte

Por Sidnei Ferreira de Vares

No plano das discussões estéticas, há um debate que merece muita atenção, a saber, aquele que gravita em torno da relação entre a produção artística e a política. De fato, não se trata de uma discussão recente, tendo em vista que, historicamente, a arte sempre esteve vinculada à religião, à política e à vida social de modo mais genérico. Contudo, é preciso separar o joio do trigo, sob o risco de incorrer-se em confusões desnecessárias.

Primeiramente, arte é expressão e, nesse sentido, sua produção, não importa a manifestação artística considerada, está submetida apenas à ação criativa do artista. Claro, parece desnecessário apontar, este não está apartado do mundo e, por isso, segue atravessado pelas mais diversas influências – políticas, culturais, sociais, econômicas, religiosas etc. Contudo, uma margem de liberdade criativa está sempre garantida ao artista, que expressa o mundo, e a si mesmo, da sua maneira.

Mas, em que pesem essas observações, ao longo da história as apropriações indébitas desse tipo de produção sempre foram comuns. O caso mais gritante diz respeito ao instrumentalismo, isto é, à tese de que a arte deve servir a difusão de fins alheios a si mesma – como no caso das teorias que reduzem a arte a fins meramente políticos. Sem dúvida, essa situação não é incomum, mas é, no nosso entendimento, equivocada. Isto porque a arte é um espaço de liberdade e, por conseguinte, reduzi-la a um efeito, seja político, religioso, cultural etc., é reduzi-la a um meio com vistas a um fim. Na ótica dos que defendem a perspectiva instrumentalista, o resultado político alcançado pela arte é mais importante do que a própria arte. Ora, tal posicionamento significa a morte da arte, à medida que reduz a expressão estética a um mero adendo. Subverte-se, assim, a ideia de que a arte é um fim em si mesmo, para defender-se a ideia de que arte é um meio para se alcançar determinado fim.

contradição está, exatamente, de que isto corresponde ao sufocamento da liberdade inerente a produção artística. O próprio artista deixa de ser livre, pois torna-se um prisioneiro de determinados valores político-ideológicos, o que, por si só, é a negação da concepção mesma de arte. Resvala-se, então, na confusão entre ética e estética.

Em segundo lugar, as posições instrumentalistas também atentam contra o espectador que, abdicando de sua liberdade, vê-se às voltas com a necessidade de racionalizar a obra, atingir o seu suposto sentido – como se a arte, por obrigação, tivesse algum. A capacidade do espectador frui-la e ressignificá-la é simplesmente negada em detrimento de um exercício de compreensão em torno de seu conteúdo. Aliás, é o conteúdo, e não a forma, o que importa a este tipo de teoria, e isso, certamente é o que faz com que a maior parte das pessoas fixem ainda um tipo de realismo como referência de qualidade, abdicando assim de uma experiência estética legítima, autêntica.

+ Texto  por Sidnei Ferreira de Vares especialmente para a revista Alzira. Sidnei é doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e professor de Estética no Curso de Filosofia do Centro Universitário Assunção.

+ Fotografia por Christiane Forcinito.