“A prostituição é legal”. Uma entrevista com Paulo Faria

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Por Rudinei Borges | Fotos por Christiane Forcinito

Há algo de paradoxal nos diferentes horários em que é apresentada a peça “Homem não entra” da Cia. Pessoal do Faroeste, na região da Luz na cidade de São Paulo: sábado, às 23h e domingo, às 17h. As duas apresentações terminam em instantes significativos: às seis da tarde (início da noite) e à meia noite (início da madrugada).

Acompanhei a peça nestes diferentes momentos, em julho deste ano. E após compor o que chamamos na Revista Alzira de tessitura crítica, propus uma conversa com Paulo Faria, dramaturgo e diretor da peça, além de fundador da Cia. Pessoal do Faroeste. Paulo, como é conhecido no meio teatral em São Paulo e no Pará, onde nasceu, foi certeiro ao apresentar as principais questões que o levam a realizar criações que são um casamento de ativismo e arte.  Criações que são, sobretudo, perpassadas por uma corajosa residência artística na Rua do Triunfo, onde vigora o que convencionalmente chamam de cracolândia.

A conversa a seguir é breve, mas é tomada por palavras em que são manifestadas a voz do cidadão e do artista Paulo Faria.

Rudinei Borges: Paulo, o que o mobiliza na construção-ativismo do fazer teatral na região da Luz, uma das regiões mais abandonadas da cidade de São Paulo?

Paulo Faria: Direitos humanos. Tivemos a experiência através do julgamento simbólico de Augusto do Amaral, o Preto Amaral, que aconteceu em 20 de setembro de 2012. Desde 2006, pesquisamos e levantamos um espetáculo sobre o fato ocorrido em 1927, quando um homem negro foi acusado (por ser negro) de matar alguns jovens. Podemos constatar nesta ação que é possível a ficção mudar a realidade. Então, diante dessa experiência, decidimos também trazer a história da Rua do Triunfo à tona, na intenção que a população se aproprie da região, através do sentimento de pertencimento e, assim, se envolver na discussão maior que envolve a Cracolândia, nome forjado pelo governo para que não nos reconhecemos ali.

Rudinei Borges: Como surgiu a ideia de uma peça de teatro com a perspectiva de reaver um decreto de Jânio Quadros: “homem não entra”?

Paulo Faria: Para entender como surgiu o quadrilátero do pecado, a Boca do lixo. Isso se deu com este decreto que expulsou as profissionais do sexo do Bom Retiro. Elas vieram pra cá. E mais do que isso, fazer um paralelo com a ação de janeiro de 2012 quando os usuários de crack foram expulsos da Helvetia. As duas ações foram bem parecidas. A polícia foi a única ferramenta usada pelos governos para extinguir uma ferida. Queremos refletir se nesses 60 anos o governo de São Paulo ainda é eugenista.

Rudinei Borges: A dramaturgia e a encenação da peça põem a narrativa de uma prostituta, interpretada pela atriz Mel Lisboa, em primeiro plano. Há aí a tentativa de uma revisão da história?

Paulo Faria: Sim. Principalmente abrir a discussão que a prostituição é legal, e a regulamentação da profissão irá trazer mais dignidades a essa categoria. Nos aliamos agora ao movimento criado pela ativista Gabriela Leite, ao trazer para a Boca do lixo a marca DASPU, na intenção de formar uma liderança para que este direito seja garantido.

Rudinei Borges: Como foi o processo de composição da peça, composição de elenco, por exemplo?

Paulo Faria: O elenco da Cia. Do Faroeste está junto nestes 15 anos. A Mel (Lisboa) é atriz da Cia. desde 2011, quando fez (a peça) “Cine Camaleão”. O coro veio de uma oficina que desenvolvemos no processo. A pesquisa durou 3 anos e processo de criação se deu através de uma didática de montagem que envolveu um ciclo de oficinas e palestras.

Rudinei Borges: Há um modo especial de tessitura para a construção do faroeste?

Paulo Faria: Sim. O faroeste é um gênero que atravessou todo o século 20, e tem seus signos. E a Rua do triunfo produziu durante quase 40 anos grandes faroestes. Temos cineastas importantes como Tony Vieira. Para mergulhar no gênero, eu chamei o jornalista Rodrigo Pereira para escrever junto. Ele é um apaixonado e pesquisador do gênero. Achei que tinha tudo ver fazer um faroeste: uma terra sem lei em processo civilizatório. Gostaria de enfatizar que toda a pesquisa da Cia. na região, nesses 13 anos, só é possível graças à Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de SP, e todos os parceiros, o que envolve uma equipe de quase 100 pessoas ao longo de todo o processo.

+ Sobre a peça “Homem não entra”

Quando: 4 de maio a 18 de agosto (Sábados, às 23h. Domingo, às 17h)

Onde: Cia. Pessoal do Faroeste. Rua do Triunfo, Luz. São Paulo.

Dramaturgia: Paulo Faria e Rodrigo Pereira

Direção geral: Paulo Faria

Elenco: Mel Lisboa, José Roberto Jardim, Roberto Leite, Beto Magnani, Thais Aguiar e Marcelo Szykman

Coro: Aldo Bispo, Alex Freitas, Cesar Genaro, Guilherme Novais, Heitor Vallim, Rodrigo Martim, Samuel Vieira, Vinicius Brasileiro e Wesley Congro

Iluminação: Dário José, Marcos Freitas, Paulo Faria e Tomate Saraiva

Técnico de Iluminação: Tomate Saraiva

Assistentes: Josiane Abreu, Marina Massaneiro

Cenografia: Daniel Ribeiro, Marcos Freitas e Paulo Faria

Assistentes: Aldo Bispo, Cesar Genaro, Heitor Vallim, Rodrigo Martim, Vinicius Brasileiro e Wesley Congro

​Cenotecnia e armas: Marcos Freitas

Figurino: F. E. Kokocht e Paulo Faria

Assistentes: Ana Aragon, Beth Rizzo, Daniela Dias Lima, Poliana Pitteri e Thiago Rizzo

Costureira: Sueli Cassini

Camareira: Luzia Sotero da Silva

Visagismo: Natalia Alves (Salão Kamura)

Maquiagem: Kryolan

Audiovisual: Dário José e Marcos Freitas

Assistentes: Ana Luisa, Camila Scudeler, Nigel Anderson e Paulo Gianini
(Oficina de video)

Fotos: Rodrigo Reis

Comunicação Visual: Nigel Anderson (Oficina de video)

Trilha: Felipe Roseno e Michi Ruzitschka

Participação especial: Fabio Sá e Gabriel Rossi

Sonoplastia e percussão ao vivo: Jorge Peña

Sonoplastia: Caio Viana e Priscila Matos

Engenharia sonora: Paulo Gianini

Preparação Vocal: Lívia Golden

Preparação Percussiva: Jorge Peña

Preparação física e regência de movimento: Érika Moura

Lutas: José Roberto Jardim

Coordenação de Produção: Mari Aguilar

Produção Administrativa: Heitor Vallim e Mari Aguilar

Produção Executiva: André Lama, Heitor Vallim e Leonardo Fuhrmann

Assessoria de Imprensa: Adriana Monteiro – Ofício das Letras

Assistentes de Direção: Graciana Magnani e Leonardo Fuhrmann

Coordenação de pesquisa histórica: Leonardo Fuhrmann