O multiverso em “Dentro é lugar longe”, breve análise de Beth Néspoli

 

 

Por Beth Néspoli

Após fazer um curso de física quântica, o dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra escreveu uma comédia chamada Perdida nos Apalaches cuja narrativa joga com o cruzamento de diferentes dimensões de espaço e tempo. Se as teorias da Física Quântica estiverem certas nós vivemos num Multiverso, ou seja, várias dimensões de tempo e espaço podem existir sobrepostas. Mal entendo a Física Clássica e se falo sobre isso é apenas porque a ideia de multiverso remete ao modo como é concebido o espetáculo Dentro é lugar longe da Trupe Sinhá Zózima, encenado dentro de um ônibus urbano que parte do Terminal Parque Dom Pedro II e transita por ruas de bairros do centro de São Paulo.

Em chave lírica, a dramaturgia trata essencialmente do sentido de perda provocado pela morte em contraponto com o enfrentamento do risco como condição intrínseca à vida, ao menos quando vivida em sua plenitude. Para tratar tal temática a Trupe investe em elementos que remetem a tempos e espaços não urbanos. Do material e formato das malas no momento do embarque à delicadeza das cortinas brancas com rendas, que o próprio espectador estende sobre as janelas do coletivo, até ao vocabulário poético acionado pelo dramaturgo Rudinei Borges, que trabalha sobre historias recolhidas, memórias de situações cotidianas com sua tragicidade prosaica, toda a ficcionalidade criada pela trupe remete ao universo rural. E assim a proposição artística se constitui como uma experiência de sobreposição de tempos e espaços.

A direção de Anderson Maurício e a opção da linha de interpretação reforçam a distinção entre a ficção e a paisagem urbana na qual espectadores e criadores estão imersos e em travessia, como se fossem universos paralelos. Num Brasil de urbanização recente, onde muitos têm um pé no asfalto e outro no barro, o ato estético da trupe tem entre suas qualidades provocar a experiência de viver ora a sobreposição, ora o cruzamento de diferentes dimensões de espaço e tempo.

No espetáculo, a potência do ato de cruzamento é proporcional à sutileza com que ele é invocado. Dentro é lugar longe é a segunda criação da Trupe Sinhá Zózima que enfrenta muitos obstáculos para trilhar o caminho de atuação escolhido, uma vez que a intervenção urbana provoca sempre muita desconfiança e exige negociações permanentes pela volatilidade dos acordos. Mas a trupe vem atuando com a coragem de quem salta no lago, para usar uma das imagens do espetáculo, e não sucumbe. Aqui e ali uma batida de braço pode parecer fora de ritmo, mas é nado cuja trajetória vale compartilhar.

+ O texto acima foi publicado com autorização da jornalista e pesquisadora Beth Néspoli. O texto foi publicado originalmente em uma página de rede social.

+ A peça “Dentro é lugar longe” esteve em cartaz no primeiro semestre de 2013. 

+ Foto por Christiane Forcinito.