Universo poético e cultura popular são o ponto alto de peça dirigida por Dulce Muniz

Por Rudinei Borges

Faz poucos dias vi passar numa ligeireza intrigante os quarentas minutos de duração da peça Dassanta do Núcleo do 184, com dramaturgia de Solange Dias e direção de Dulce Muniz, no Teatro Studio Heleny Guariba, no centro antigo de São Paulo. Logo de início saltavam aos olhos a tessitura do cenário no palco ocupado por fitas coloridas, bandeirolas e a imagem de São João Batista que compunham a praça de algum povoado interiorano do Brasil tomado em dias de festa. Estavam instaurados os ares duma paragem longínqua na disposição dos elementos cênicos, na voz ávida do narrador e na cantiga que anunciava a chegada de uma trupe de atores andarilhos: uma história seria contada. Era a vida de Dassanta, marcada pelo signo da morte nos olhos, incapaz de viver o amor dos homens que estavam sempre à volta de sua beleza. A peça desenvolve-se neste propósito: destrinchar a peleja de dois homens apaixonados pela boniteza de Dassanta.

Revista Alzira - Foto por Christiane Forcinito. Peça "Dassanta"A dramaturgia de Solange Dias, em Dassanta, está calcada na tradição popular de contação de histórias de labutas amorosas que, por vezes, têm finais trágicos. Parece-nos que esta tradição inspira-se, sobretudo, na literatura de cordel e vem alcançando novos olhares na dramaturgia contemporânea de raiz nordestina, o que podemos verificar nos textos de Claudia Barral ou de Newton Moreno. Dois excelentes dramaturgos. Ou em dramaturgos do século XX, como o relevante trabalho de Francisco Pereira da Silva. Ou em dramaturgias de autores de outras regiões como a notória peça Catalão Macaubal de Antônio Rogério Toscano.

Porém é imprescindível destacar o trabalho cênico, dirigido por Dulce Muniz, capaz de aproximar espectadores da grande metrópole de uma realidade que surge, a princípio, distante. Fator desvelado na interpretação dos atores, na tecelagem do som e na iluminação delicada que se interpõe entre noite e dia, estabelecendo quase um aspecto de entardecer.

Entretanto, o maior alcance da peça Dassanta, além de colocar em cena trapaças e pelejas, o que levaria a um paralelo com a crueldade das facetas do capitalismo do novo século, é descortinar no espectador um universo poético de singeleza inesgotável, o que me levou imediatamente ao mundéu do interior da Amazônia brasileira, onde nasci e cresci, pondo-me diante dos festejos de Santa Ana, sempre em julho. E do parque de diversões, que provavelmente brotava de caminhões empoeirados, que só vinha para Itaituba, no Pará, apenas uma vez por ano.

Aquele parque de diversões era como a trupe de Dassanta. Não que o teatro seja um parque de diversões, longe disto. Teatro, decerto, é coisa de força mais profunda. Porém, foi isto que veio para os meus olhos naquele instante: um menino pobre que olhava o chapéu mexicano com algum encantamento e queria pôr-se naquele brinquedo como parte dele e nunca mais sair.

Se Dassanta, em sua simplicidade inventiva, conseguiu levar-me para este lugar, então, creio que alcançou o que há de mais poderoso no teatro: permear o ser humano de esperanças. E um ser humano com esperanças é capaz de mover montanhas.

+ Tessitura fotográfica por Christiane Forcinito. Clique sobre a foto para ampliar.