Novos voos da Cia. do Pássaro entre[vista] com Dawton Abranches

| Por Rudinei Borges |

Rudinei Borges – Não faz muito tempo a Rua Álvaro de Carvalho, cravada no centro antigo de São Paulo, ganhou um novo espaço de experimentações cênicas, a Cia. do Pássaro. Dawton, conte-me o que mobilizou a você e o seu grupo para a criação deste espaço de ensaio e apresentações teatrais?

Dawton Abranches – Desde quando ainda fazíamos escola de teatro, já tínhamos o desejo de formar um grupo para desenvolver um trabalho de pesquisa que nos guiasse após o término da escola. Chegamos a fazer parte de um grupo de teatro com um maior número de componentes, mas que permaneceu sem perspectivas até o ano de 2011, quando eu e mais dois outros atores resolvemos nos dissociar e formar nossa companhia de teatro, que nos permitisse atuar com maior liberdade para progredirmos com nossos trabalhos de uma forma mais profissional. Logo apareceram novas oportunidades e, graças ao apoio de outros componentes que se juntaram a nós nessa empreitada, em pouco tempo conseguimos organizar nosso espaço de ensaio e apresentações, já que essa era uma grande necessidade para a produção das nossas experimentações cênicas, que resultaram nas apresentações de “Anjo Caído”, em 2012.

Rudinei Borges – Como surgiu a ideia deste nome, que é – sobretudo – poético e inspirador: Cia do Pássaro?

Dawton Abranches – O nome surgiu justamente dessa necessidade de liberdade para que conseguíssemos atuar de uma forma mais abrangente artisticamente. O fato de estarmos presos a outros processos que burocratizavam nosso trabalho no antigo grupo nos incomodava bastante. Assim, decidimos que deveríamos abrir a gaiola e alçar novos vôos em direção a uma arte verdadeira. Como o pássaro. A idéia da inclusão do “vôo” ao nome da companhia foi sugestão de meu irmão mais novo, que é músico, e pareceu estranha a princípio, mas hoje vemos que faz todo o sentido.

Rudinei Borges – Conte-me quais são as principais características do teatro proposto por vocês?

Dawton Abranches – Acredito que nossa principal característica é não estarmos presos a uma característica definida. Devemos ter a humildade de admitir que ainda somos jovens pesquisadores do fazer teatral e buscamos descobrir novos lugares, novas linguagens, novos artistas, etc. Por isso estamos nos associando a outros jovens grupos de teatro, novos autores e diretores para que, juntos, somemos forças para possibilitar uma maior visibilidade ao trabalho de quem está começando. Não temos a pretensão de achar que nosso trabalho deva ser realizado numa ilha isolada para classificá-lo como única forma de se fazer Teatro. É claro que cada um de nós da Cia. possui uma peculiaridade e gostos pessoais quanto à realização dos trabalhos de encenação e, se eu pudesse definir nossa característica principal nesse momento da nossa formação, eu a chamaria Liberdade.

Rudinei Borges – Como a Cia. do Pássaro se insere no panorama teatral de São Paulo?

Dawton Abranches – Poderíamos ser definidos como uma Cia de teatro em início de formação, que tem muito trabalho a fazer e a ser mostrado, além de muita garra e vontade de se associar a novos artistas para a realização deste trabalho. Temos tempo para chegar muito longe ainda.

Rudinei Borges – Dawton, que peças e experimentações o grupo já realizou? Como se deu o envolvimento de diretores, dramaturgos e atores nos processos?

Dawton Abranches – Em 2012 realizamos a experimentação cênica chamada “Anjo Caído”, apresentada na própria sede da Cia. e com repercussão bastante surpreendente para nós no FRINGE, em Curitiba. Foi um processo conduzido sob a direção do Pedro de Alcântara, convidado especialmente para a realização deste trabalho. A dramaturgia foi desenvolvida pelos próprios atores (eu, Alessandro Marba, Geovana Pagel e Pablo Calazans) desde 2010, quando ainda fazíamos parte do antigo grupo de teatro, e foi baseada em estudos das obras de Fernando Pessoa, Friedrich Nietzsche e do “Paraíso Perdido”, de John Milton. Apesar de não ser um trabalho que buscasse uma grande longevidade no sentido de permanecer em temporada, ele nos possibilitou termos grandes lições a respeito de como pretendemos organizar e direcionar nossos estudos.

Rudinei Borges – A Cia. do Pássaro apresenta atualmente uma nova montagem teatral, “Inspir.ações para voar”. Creio que é muito interessante que você “teça” um panorama da criação da peça e de todos os atuadores envolvidos neste projeto. Tudo bem?

Dawton Abranches – “Inspir.Ações para Voar” marca o retorno do Pablo Calazans, agora como diretor convidado aos trabalhos conjuntos com a Cia. Apesar de não atuar como integrante da Cia. do Pássaro, ele inaugura um núcleo de pesquisas paralelo dentro dela, que permite a continuidade e maior fluxo nos nossos trabalhos. O espetáculo foi construído a partir de experimentações e workshops acerca da liberdade propostos pela direção e realizados pelos atores a partir de experiências pessoais com essa temática. A dramaturgia surgiu paralelamente, a partir das cenas apresentadas após essas experimentações. Além de dois integrantes da Cia do Pássaro, contamos com mais três atores convidados, sendo a maioria deles recém-egressos da SP Escola de Teatro, assim como o diretor e a dramaturga envolvidos no processo.

Rudinei Borges – Quais os projetos próximos da Cia. do Pássaro?

Dawton Abranches – Atualmente, a Cia. desenvolve o projeto do espetáculo “Oriki  (Kongeriget-Ifé)”, texto da dramaturga Dione Carlos, inspirado em Hamlet e na mitologia dos Orixás; encomenda feita especialmente por mim a ela, que nos presenteou com uma bela poesia que será transformada no que consideramos o primeiro grande espetáculo da Cia. do Pássaro. Contamos com a participação de jovens expoentes da cena teatral paulistana para a realização desse projeto e compusemos um elenco bastante rico, que vem nos surpreendendo e gerando grandes expectativas. Ainda em fase de negociações, temos planos de montar em 2014 os espetáculos “Córtex Falido”, mais um texto inspirado numa obra de Shakespeare (Macbeth), de outro jovem dramaturgo, Fábio Rocha, e que integrará, juntamente com o “Oriki” a mostra teatral intitulada “Shakeinspire-me”; e “Contos Negreiros”, baseado na obra homônima de Marcelino Freire, no qual também pretendemos explorar essa diversidade dos artistas envolvidos com os nossos trabalhos.