Solange Dias – entre[vista]

Solange Dias

| Por Rudinei Borges | Foto por Christiane Forcinito |

Rudinei Borges – De uma tacada só um punhado de perguntas. Solange, parece-me que o seu itinerário de vida, escrita e teatro tem uma relação com a sua permanência em Santo André. Lembrei-me de um poema de Manuel Bandeira, “Evocação do Recife”. Bandeira evoca o Recife sem história nem literatura, Recife sem mais nada, Recife da infância. Como era Santo André de sua infância, Santo André sem história nem literatura, Santo André sem mais nada? Como foi a sua infância? Que pessoas motivaram e são referências para o que você é hoje como pessoa, como diretora e como dramaturga? Em que momento você decidiu pelo teatro? Em que momento esta escolha soou mais forte e viva?

Solange Dias – É uma coisa curiosa, Rudinei, pois sou andreense e morei em Santo André até os cinco anos e não tenho lembranças dessa época. Meu pai trabalhava no RHODIA, uma empresa multinacional, como peão, como tantos outros que vieram do interior paulista no final dos anos 1960 pra fugir da vida dura da roça.

Santo André faz divisa com a zona leste de São Paulo. Fomos então morar no Parque São Rafael, região de São Mateus, ou seja, a periferia, e naquela época, a do milagre econômico, você podia comprar um lote nessas regiões.

Então, meu imaginário foi sempre de alguém que vivia na precariedade da periferia, querendo viver na cidade, no caso, Santo André…  E assim que pude, comecei a estudar em Santo André à noite no ensino médio, trabalhando durante o dia como auxiliar de escritório em São Mateus.

Nessa época, 16 anos mais ou menos, já sabia que queria trabalhar na área artística. Eu gostava de escrever, tinha meus diários, escrevia minhas poesias. Mas não tinha muito estímulo de ninguém. Até porque “fazer teatro” não era considerado uma opção profissional. Só quando comecei a fazer educação artística na FATEA em Santo André nos anos 1980, com a desculpa de que poderia ser professora, é que encontrei minha turma. Foi lá que formei meu primeiro grupo e, como já gostava de escrever, foi natural que começasse a escrever meus primeiros textos.

Quando entrei na faculdade não sabia o que era Dramaturgia e o primeiro texto que li foi “Esperando Godot” do Beckett, e arrogância dos meus 20 anos me disse que eu também podia fazer aquilo, pois fiquei apaixonada por ele, e sou até hoje…

A partir daí foi um misto de sorte e paixão, pois estive no lugar certo na hora certa. Encontrei pessoas que fizeram parte da minha formação e me acompanham até hoje: Cássio Castelan, ator e parceiro nos projetos e nos vários grupos que formamos; a dramaturga Adélia Nicolete, colega de turma da FATEA e a primeira a estimular meus trabalhos de escrita; Luis Alberto de Abreu, que durante anos me ajudou a organizar, aprofundar e a potencializar minha escrita e Celso Frateschi, que me ajudou a compreender a importância do papel do artista na sociedade.

Rudinei Borges – Quais escritores influenciam suas composições literárias?

Solange Dias – Em um primeiro momento, Beckett foi a minha grande influência por sua poesia e juntamente o realismo fantástico de Júlio Cortázar, principalmente nos contos. O compositor baiano Elomar Figueira de Melo já me acompanhava desde o início também.

Na sequência, Guimarães Rosa e Clarice Lispector.

A descoberta de Heiner Muller e Koltés também foi bem importante.

Rudinei Borges – Acredito que tecer um panorama de sua obra é relevante para situar o seu trabalho. Conte-me a sua trajetória nas artes cênicas.

Solange Dias – Depois que me formei na Faculdade em artes cênicas comecei a trabalhar como oficineira de teatro em um Centro Comunitário de Santo André no início dos anos 1990, exatamente a época de transição, pelo menos no ABC, do movimento de teatro amador para o surgimento das oficinas culturais, época também do surgimento da Escola Livre de Teatro. Em paralelo, fui sempre trabalhando com grupos como atriz, dramaturga e diretora, nessa época, o Teatro do Abaporu. Escrevi então, Acalanto, baseado na música homônima do Elomar e Paranaciacaba – de onde se avista o mar, primeiro texto produzido no Núcleo de Dramaturgia coordenado pelo Luis Alberto de Abreu e dirigido por Cristiane Paoli-Quito.

Nessa época, Santo André viveu uma efervescência cultural muito forte. Tínhamos Mostras Teatrais Internacionais, workshops, oficinas. Devido a ELT, recebemos artistas nos centros comunitários nas periferias como Denise Stocklos e o grupo XPTO.

Com o fechamento da escola, em 1994, e o término do Teatro do Abaporu, a decepção foi tamanha que resolvi me mudar para Vila Mariana em São Paulo. Era professora de Interpretação no Teatro Escola Célia Helena e queria tentar um novo rumo artístico.

Foi a fase em que senti dificuldade em montar um grupo, assim acabei desenvolvendo textos para diversos elencos: Ôneiron,  releitura da trajetória de Clitemnestra e Ifigênia,  direção de Leo Pacheco;  Eídolon – Sombras de Tróia, com direção de Regina Galdino;  A Casa do Sol, com direção de Hugo Villa-Vincenzo, Circo trilho Circulô com direção de Cristiane Paoli-Quito.

Só voltando para Santo André em 2000 e formando o Teatro da Conspiração é que, acredito,  retomei e aprofundei  minha  linha de criação dentro do trabalho em grupo. Nessa fase:

Os textos que escrevi e dirigi: Cantos Periféricos, 2003, em que coloco a periferia que vivi de forma poética e Dassanta, 2010, novamente revisitando Elomar.

Dirigi: Partida, 2000, texto criado por Luis Carlos Leite no Núcleo de Dramaturgia da ELT  coordenado por Luis Alberto de Abreu e Geração 80 (2002), dramaturgia criada em processo colaborativo por Adélia Nicolete, em que falamos da nossa juventude nos oitenta e a história recente do Brasil.

Escrevi: Tito – É melhor morrer do que perder a vida (2007), baseado na vida do frei dominicano  Tito de Alencar Lima.

Rudinei Borges – Solange, pode-se pensar na ideia de cultura popular como um dos temas mais presentes em sua obra dramatúrgica? Quais são os temas que norteiam a sua dramaturgia?

Solange Dias – Na verdade, cada projeto fala o tema, por exemplo, o próximo projeto do Teatro da Conspiração e sobre um romance do Mia Couto, então agora, tudo se volta para o estudo desse universo: os romances de Mia Couto, Moçambique, o fantástico…

Acredito que, de maneira geral, o que norteia todos meus trabalhos desde o início é o poético político, ou seja, algo que passe pelo ser, pelo o que é mais humano, mas que não fique nele somente, mas que algo o potencialize em um primeiro momento, e que depois o ultrapasse,  transborde e  transforme o que está a sua volta.

Rudinei Borges – Que peças de teatro não saem de sua cabeça? Quais peças motivam e influenciam o seu trabalho?

Solange Dias – Macunaíma do Antunes com Marcos Oliveira em 1980. Vi no Teatro Municipal de Santo André e foi impactante.

Romeu e Juleita, também do Antunes, em 1984 com música dos Beatles era maravilhoso.

Leonce e Lena em 1987, com direção do Willian Pereira com a Barca de Dionisos. Tinha a Lucia Romano e o Abílio Tavares, até o Antônio Araújo fazia como ator. A temporada era no galpão do SESC Pompéia e me lembro que assistíamos em pé entre os atores, tudo era muito movimentado e diferente de tudo que eu via até então. Dava vontade de sair dali fazendo teatro.

A Trilogia Kafka do Thomaz com Bete Coelho e Damasceno era de encher os olhos.

Artaud com Rubens Correa era teatro na veia.

A Trilogia Bíblica do Teatro da Vertigem influencia muito o que gosto de ver e fazer em teatro e Vau da Sarapalha do Piollin é a síntese de um Brasil em tudo: dramaturgia, atuação e encenação que dialoga muito com meu trabalho e com o Teatro da Conspiração.

Rudinei Borges – Quais são os livros de Solange Dias? Que livros alimentam o seu trajeto, os seus escritos?

Solange Dias – O Jogo da Amarelinha – Júlio Cortázar.

Primeiras Estórias – Guimarães Rosa.

Um sopro de Vida – Clarice Lispector

Sinuca embaixo d’Água – Carol Bensimon

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra de Mia Couto.

E as peças de Shakespeare, Beckett e Thecov.

Rudinei Borges – Que conselhos você daria a um jovem dramaturgo? Por que caminhos um jovem dramaturgo deve se embrenhar?

Solange Dias – Ler, ler, ler, escrever, escrever, escrever e se possível, fazer parte de um grupo ou estar em contato com eles.

Rudinei Borges – Como são as outras Solanges: a filha, a mãe, a mulher, a cidadã? Que rosto têm estes outros rostos?

Solange Dias – Pra não me perder:

Filha: voltei ao lar e entendi a importância de se ter uma base.

Mãe: a atrapalhada em pessoa.

Mulher: à deriva.

Cidadã: em aprendizagem.