Edilson Pantoja – Entre[vista]

O escritor Edilson Pantoja em 1980.
O escritor Edilson Pantoja em 1980

|Por Rudinei Borges|

De Edilson Pantoja guardo fragmentos de seus escritos que hora ou outra retomam como filhos prodígios para minhas lembranças. Algo que vem de partes dos romances “Albergue Noturno” (2005) e “A Pedra de Babel” (2010). Sobretudo, “A Pedra de Babel” e a vertigem do deserto que ali se abre com andantes, faróis, rememorações do primeiro e segundo testamento e a condição de procura que se pôs (ou não) ao ser do homem como se ele vislumbrasse miríades de desamparo. Noutros momentos reaparecem em mim recordações de suas palavras sobre Dalcídio Jurandir numa dissertação de mestrado que encontra outras vazões para o extremo norte do autor de “Chove nos campos de Cachoeira”, mais próximas de Schopenhauer e Nietzsche. E mais recentemente a sua prosa vertida em crônica e memória espalhada em paragens na internet.

Tudo isto e um tanto mais põe o meu olhar para a tessitura literária de Edilson Pantoja, autor brasileiro nascido e radicado no Pará, uma das vozes mais inventivas da prosa brasileira na última década, numa completude de admiração. Há tempos punha em rascunhos esta entrevista que agora se anuncia como quem conversa com um amigo. Foi este amigo que vi desembarcar em São Paulo certa vez para uma feira literária. A voz que ali habitava naquele corpo amazônico era (e é) de um narrador, destes que se colocam à volta da fogueira e contam histórias, arcas que vem duma Marajupema inventada, pedaço de chão que termina em Pasárgada e Macondo.   

Todavia, a escrita de Pantoja está longe de uma narrativa confortável, algo previsível, ao contrário. Ele veste a verve da inventividade, o que o coloca, mesmo em tons muito particulares, ao lado de romancistas contemporâneos como Raduan Nassar e Luiz Ruffato. Na veia dos romances de Pantoja há uma poesia silenciosa que injeta leveza ao tecido de sua procura. Talvez menos afeito ao filósofo, ele está mais próximo dos poetas.

O que se encontrará a seguir não é uma conversa das tardes. Trata-se, acredito, de uma fala das madrugadas, vozes que atravessam a noite e só acabam com os primeiros raios da manhã. Imagino que, nesta contribuição miúda, surja aqui uma fresta, como um primeiro encontro, a quem deseja conhecer a criação literária de um dos mais interessantes escritores da literatura brasileira contemporânea. Edilson Pantoja precisa ser lido, devorado. Espalhem este segredo por aí.

Rudinei Borges – Tenho um receio enorme de errar este começo. Que pergunta fazer inicialmente em se tratando do autor de uma obra de tessitura sagaz e peculiar como no seu caso – eis a questão. Pergunto por atrevimento: você acredita em Deus?

Edilson Pantoja – Deus, esta ideia grandiosa, penso que é tão humana quanto a de universo, natureza, cultura, homem, e tudo o mais. – “O que é tudo senão o que pensamos de tudo?”pergunta o poeta que tanto admiro e que vez por outra aparece em meus textos. Eu vou com ele. Creio no simulacro e nas fantasmagorias, efeitos do deserto no homem, expressões de sua vontade de sentido, de seu sentimento do caos, da ausência de sentidos prévios. Esta vontade gera os significados. Direciona o olhar. O espírito. Creio na ilusão. Deserto é minha figura para a condição humana. Torno ao poeta: “Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo”. Creio na ficção. Na invenção. Na ilusão. No sonho. No olhar que emprenha. Creio no Quixote e em seu escudeiro. 

Rudinei Borges – Um dia li algo seu sobre Marajupema, lugar distante, lugar de sua origem. Isto me encantou profundamente, o que me levou, logo em seguida, a escrever um poema. Diz-me mais de Marajupema. Que é este lugar mágico, meio Pasárgada, meio Macondo?

Edilson Pantoja
O escritor Edilson Pantoja em sua biblioteca em Icoaraci, em Belém, Pará

Edilson Pantoja – Marajupema, para aproveitar o título de tua peça, é um lugar dentro. É factício e fictício a um só tempo. Objetivo e subjetivo. Situa-se, com suas oito, nove casas, em forma de aldeia, na margem paraense do rio Gurupi, maior rio do mundo em extensão e volume d’água, fronteira com o Maranhão. Lugar de pescadores, coletores, caçadores, agricultores. Ribeirinhos, enfim. Vivi efetivamente em Marajupema até os cinco, seis anos de idade, para frequentar a escola em Boa Vista, também na fronteira, onde passa a estrada que liga Belém a São Luís do Maranhão. Depois foram os retornos nas férias escolares. Papai, que era regatão, tinha um pequeno barco. Ouvi por lá muitas histórias, quando criança, à boca da noite. Havia grandes contadores, como Seu Nezinho, lavrador, e Seu Afonso, pescador. Contribuíram muito com minha imaginação. Eu andava de canoa e gostava da água grande do inverno. O chamado igapó. A floresta submersa até as canelas dos paus, onde o uruá punha ovos, adquiria um ar misterioso, de desconhecido, de estranho. Era também com as grandes águas que vinha a malária, a febre, os tremores ao sol. Duas mortes determinaram nosso [minha família – mãe, quatro irmãos] afastamento físico de Marajupema: a de meu pai, uma doença não bem explicada em 1976 [falou-se então em feitiço] – e minha mãe, tão jovem, aos vinte sete anos, tentou assumir os negócios, e a de meu tio materno, assassinado em 1980. Por ocasião desta última, já nos fixávamos em Capanema, escolas mais adiantadas. Eu tinha onze anos. Marajupema, porém, nunca saiu de meu espírito. Eu tornei lá, vinte quatro anos depois, breve, mas então o lugar fictício e o factício se estranharam. Só aqui dentro eles se conciliam como encaixes de um todo inventado. Meu laço mais íntimo com o lugar objetivo é Clodoaldo, um amigo símio, de infância, que vive lá e com quem, devido à internet, eu me correspondo quase diariamente. O resto é invenção que contei para meus filhos, para Cleide, para amigos, e, de tanto contar, acreditei.

Rudinei Borges – Dito isto, conta-me de sua vinda para Capanema, para Belém, a capital do Pará.

Edison Pantoja – Capanema era a “cidade grande”, a poeira da fábrica de cimento sobre a periferia aonde fomos morar; a banca de revistas na Avenida Barão de Capanema; a escola; a televisão em preto e branco em uma e outra casa vizinha, colorida num bar no centro da cidade, onde, para disfarçar, eu e um amigo da rua, loucos por desenho animado, pedíamos aqui e acolá um copo d’água; o cinema, o ingresso pago com venda de picolés, os porteiros com vista grossa para certas delimitações de idade [pena que o cinema depois virou templo neopentecostal, teologia da prosperidade]; o campo de futebol na rua de casa… A nosso pedido, mamãe, em raro momento de fortuna, nos deu [a mim e meu irmão mais velho], um jogo de camisas nas cores do flamengo, e formamos um time de futebol no bairro, meu irmão goleiro, eu atacante, camisa dez. Foram bons momentos! Cheguei a sonhar [a sós, dentro da rede] em ser jogador de futebol do Clube do Remo, time do coração de meu pai. Minha referência e de zilhões de meninos nos anos oitenta, era Zico, o maior jogador que vi em ação até hoje. As dificuldades financeiras, enormes, gritantes, mamãe, viúva, semianalfabeta, e cinco filhos para criar, eu deixo supostas. Se na época tivesse Bolsa Família, certamente teria nos ajudado um bocado! Vivi em Capanema durante quinze anos, até 1995, quando passei no vestibular para o curso de Filosofia da Universidade Federal do Pará, que então só funcionava na capital, Belém. A vida aqui naquele período e tudo mais, a moradia numa grande república de estudantes, as dificuldades, os amigos, a solidariedade, o que isso significou daria muitos livros, mas resumo nas boas amizades construídas, em dois filhos e em Cleide, companheira e amiga há dezessete anos, e a quem dediquei o “Albergue Noturno”.

Rudinei Borges – Como você se situa dentro do que chamam campo literário: romancista, contista, novelista? São tantas denominações.

Edilson Pantoja – Aos dois livros de ficção que publiquei, denominei romances. Hoje é um pouco isso, é o que o autor diz ser. Considero-me então romancista, embora meus capítulos tenham forma de pequenos contos, meus romances, cada um, a rigor, um único e monologante personagem, e suas aventuras românticas sejam profundamente idiossincráticas, oníricas.

Rudinei Borges – Assim está escrito no romance “Albergue Noturno”: “Meu trabalho não é simples. Complexo sob qualquer perspectiva. A olhos leigos é provável que se assemelhe a um vagar sem rumo ou ainda, tomando-se simplesmente sua estranheza, não se resista a uma analogia com certas fórmulas e equações da alçada dos físicos e matemáticos”. Conta-me do seu itinerário como escritor. De onde vem esta gana por lutar com as palavras, quando começou esta fagulha da escrita em sua existência?

Edilson Pantoja – O personagem de “Albergue Noturno” é egresso de um manicômio que existiu em Belém [que só conheci por ouvi dizer], e esta frase, como todas as que ele elabora, os projetos que alimenta e as aventuras que protagoniza têm, de algum modo, a marca desta condição e a liberdade de que só os loucos são capazes. Eu cresci ouvindo histórias em Marajupema; aprendi a ler bem cedo, e tive uma infância marcada por esses dois estímulos à imaginação e à criatividade. A leitura me acompanhou pela vida, e eu mesmo, quando me tornei pai, tornei-me também contador de histórias para meu casal de filhos. Além disto, meu encontro com a Filosofia foi o estímulo que faltava para eu ensaiar a escrita. Minha primeira tentativa de romance, em 1998, intitulado “O louco e a sombra”, que não concluí, já tinha uma proposta filosófica. Não obstante, tinha um tom regionalista, temática que vim a abandonar. Desconfio que meus personagens têm como arquétipo um louco chamado Sadico, que conheci na infância, também na beira do Gurupi. Quando o rádio tocava, ele às vezes dançava sozinho, a mão no peito como a conduzir uma mulher, os passos perfeitos. Também passava horas na beira do rio a fazer santos de barro, que deixava secar ao sol e depois tornava a amassar, remoldar… Sadico, embora adulto, era nosso amigo [meu e de meu irmão mais velho].

Rudinei Borges – Explica o segredo deste percurso: da filosofia para a literatura ou da literatura para a poesia ou dois rios que se deparam, coisa mesma que não se separa? Como isto atravessa a sua obra?

Edilson Pantoja – Filosofia e Literatura são modos de ficção. Tentativas de sentido. Sonhos. O modo como eu as recebo e as encaminho em meu trabalho é atravessado por afecções, questões que eu mesmo enfrento. Em meu caso, são “coisa mesma que não se separa” 

Rudinei Borges – Quais são os autores que o influenciam?

Edilson Pantoja – Não gosto muito de pensar em influência, embora não tenha outra expressão – talvez afecção. Eu tenho uma formação acadêmica meio fora do comum – uma graduação em filosofia, um mestrado em literatura, e estou a concluir um doutorado em antropologia -, o que me faz conectar uma gama de autores e questões bem diversas, uns antigos, outros recentes, uns mais, outros menos, a me afetarem, e que, associados a minha biografia, imaginação e modo de olhar, encaminham questões ligadas àquele pensamento expresso na primeira resposta – o problema da significação, da ficção, do simulacro, do deserto, da ilusão. Enfim, do que tenho chamado de vontade de sentido. Tudo ligado ao problema da morte, do sentimento de caos. E ultimamente cheguei à noção de pareidolia, o olhar que fertiliza, que cria o sentido, que “vê” a forma [a vontade de sentido posta em prática]. Vou citar nomes para responder à pergunta, e espero que isso não soe pedante. Entre os que me afetam, Fernando Pessoa, Dostoiévski, Schopenhauer, Kafka, Cervantes, Heidegger, Dalcídio Jurandir, Nietzsche, também alguns escritores bíblicos… Li Beckett, Cioran, Emmanuel Bove, Bruno Latour, Gilles Lipovetsky, Pierre Lévy, Roy Wagner, e Eduardo Viveiros de Castro, autores que também me afetaram bastante, depois de publicar os dois romances… Mas persigo meu próprio texto, minhas questões.

Rudinei Borges – Quais livros você já publicou? Conta-me sobre eles. O que diria sobre estes livros aos leitores que ainda não os conhecem?

Edilson Pantoja – Publiquei em formato digital “O extremo norte: finitude e niilismo em Dalcídio Jurandir”, um estudo em perspectiva filosófica sobre a obra deste grande e ignorado escritor. Mantenho o desejo de retornar a esse texto, ampliá-lo, imprimi-lo. Impressos, os romances “Albergue Noturno” e “A pedra de Babel”. Até onde sei, são todos livros virgens, ainda a esperar seus leitores. Se cada um tiver três leitores, é muito. Leiam, é o que diria.

Rudinei Borges – No meu caso, a porta de entrada para a sua obra foi o seu estudode mestrado sobre o tema da morte nos romances do escritor paraense Dalcídio Jurandir. Qual a importância deste autor para a literatura brasileira?

Edilson Pantoja – Tivemos aqui em Belém um crítico literário de grande respeito no Brasil, com estudos sobre Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Heidegger, que foi o Benedito Nunes, fundador do Curso de Filosofia na Universidade Federal do Pará. Uma vez eu o ouvi referir-se a Dalcídio Jurandir como uma das colunas da literatura brasileira. Eu não diria menos.

Rudinei Borges – O seu primeiro livro, como afirma Ricardo Torres, nos transporta a espaços de crescente esvaziamento do ser nos intensos e crus monólogos do Doutor Lutero Dias. Como foi a construção deste personagem-fala? Ainda há espaço para o personagem no romance contemporâneo?

Edilson Pantoja – Uma vez, não sei se em texto ou em vídeo, vi alguém referir-se a um autor latino-americano, convidado para a Flip, que sua obra expressaria o que ali se chamava de niilismo fantástico. Menções à obra, na matéria, me fizeram reconhecer diversos pontos em comum com o que escrevo. Lutero Dias é um personagem-valise. Tiro dele um verme da terra, o cão Cérbero, deuses, um macaco ordinário, entre outros. Assim como, em “A Pedera de Babel”, do protagonista, que não tem nome, faço sair um camelo, um macaco, um garanhão corredor, Adeleine, um menino, uma boca enorme, cabras, um santo, uma raposa, um gafanhoto, etc. São talvez o que tu chamas de personagens-fala. Meus romances, até aqui, têm espaço para personagens desse tipo.

Rudinei Borges –  “Sou um morador do deserto. Digo um. E não um desses, pois desconheço haver quem me faça par”. Que é este deserto que atravessa o romance “A pedra de Babel? Que aridez existe nestes desertos que não ardem, mas nos convidam a viver neles?

Edilson Pantoja – Este deserto é a matéria-prima do olhar que fertiliza. É a fonte de toda e qualquer fantasmagoria. É objetivo e subjetivo a um só tempo. Externo e interno. Não sei se convida a viver. Me parece mais que não temos opção, a não ser vagar nele, a “vê-lo”.

Rudinei Borges – A hora de Adeleine. Quem é esta personagem que permeia o livro “A pedra de Babel”?

Edilson Pantoja – Adeleine é o sonho que sonhamos. É também a causa de todo e qualquer sonho. Ela é a própria Pedra de Babel, base de toda significação.

Rudinei Borges – Num comentário sobre o livro “A pedra de Babel”, Salomão Larêdo afirma que você é “um mestre de obras escancaradas para o mundo”. O que é ser universal em termos literários? Há este anseio em sua obra?

Edilson Pantoja – É falar do humano, não do exótico. Meu anseio é penetrar o cerne do humano. E no caminho do onírico e da metáfora é onde me sinto melhor para fazê-lo. Meus textos não são realistas.

Rudinei Borges – Encontro com alguma recorrência nos escritos que você publicou um artesanato primoroso da palavra, uma construção apurada de frases e parágrafos. Parece-me existir uma escolha exigente na procura pela palavra e – mais ainda – na construção certeira da frase. Nada se perde em sua escrita. Às vezes, vejo-me defronte de um Nietzsche ou de um autor dos livros proféticos do Primeiro Testamento, algo que transcende. Você é um escritor metafísico?

Edilson Pantoja – Acho importante definir o que, hoje, chamo metafísica: é o significado; a forma; a plástica do “visto”; a ação e o produto do “ver”; é o “visto”. Ponho aspas porque também me refiro ao pensado, ao imaginado. Pertence à metafísica tudo que envolve vertigem e significação. O sentimento do caos, do abismo, do nonsense, a morrência, as tentativas de “sim”. Desse ponto de vista, ao me ocupar dessas coisas, sou, sim, metafísico. Às vezes gosto do que escrevo; às vezes, não. E isso pode ocorrer com relação a um mesmo texto. Sou bem obsessivo com a escrita. O grande problema disso, é que tal obsessão leva, em meu caso, a um cansaço mental, um estresse com o texto, um entorpecimento que compromete o senso crítico. Ao mesmo tempo, às vezes, experimento uma viagem profunda, cheia de adrenalina, numa construção criativa que me arrebata. São, para mim, meus melhores momentos como criador, e meus melhores textos. Claro, que, depois, faço as correções. Já falei acima que tenho uma influencia bíblica. E é curioso ler autores como Heidegger e Nietzsche, por exemplo, em quem também reconheço essa marca, cada um a seu modo. Quem conhece bem a bíblia, e eu a conheço razoavelmente bem, tendo-a lido de capa a capa mais de uma vez, reconhece-lhe a marca em outros textos que a têm.

Rudinei Borges – Também noto em sua obra uma procura avassaladora pela brevidade, pelo silêncio. Os livros são compostos de capítulos curtos, todavia, estão sempre tomados de algo sublime que envolve os leitores. Penso sempre, quando leio a sua obra, na brevidade de Isaac Babel, claro que sua temática é outra. Diz-me mais disto, desta busca pela brevidade.

Edilson Pantoja – Acho que tem a ver com o que eu disse na resposta logo acima: o planejado e os ápices de adrenalina.

Rudinei Borges – Você realizou algumas travessias pela Europa. Como as várias viagens influenciam a sua escrita?

Edilson Pantoja – Estive uma vez na Europa, em 2011, quando conheci Lisboa, Paris e Berlim. Uns amigos, moradores desta última, arrumaram, lá, numa pequena livraria que vende literatura em português, uma lesung, um evento bem simples, de leitura, comigo. Essas coisas fazem parte da cultura local. E essa livraria sempre faz isso com autores de língua portuguesa. Depois dessa viagem não tornei a escrever ficção. Quando voltar, não sei se, e de que modo, a viagem vai se atualizar na escrita. Mas eu pensava em passar uma temporada em Paris, por ocasião de um doutorado-sanduíche, a partir de abril próximo. Havia uma expectativa para com a escrita. O plano não vingou. Quem sabe, mais adiante.

Rudinei Borges – Como você analisa o panorama da literatura brasileira contemporânea? É possível ter esperanças?

Edilson Pantoja – “Há esperança, menos pra nós”. Eu não tenho esperança nesse sentido. É uma ética pessoal.

Rudinei Borges – Como você avalia a dificuldade que a maioria dos escritores tem de distribuição de suas obras no Brasil? Há como mudar esta realidade?

Edilson Pantoja – Eu me desliguei dessa questão. Ela não faz sentido para mim.

Rudinei Borges – Você ousaria sustentar-se apenas com literatura? Isto é possível no Brasil?

Edilson Pantoja – Eu não ouso. Mas acredito que é possível a outros escritores.

Rudinei Borges – Em outros tempos, a maioria dos autores deixava suas regiões de origem e partia para a capital do Brasil, que era o Rio de Janeiro, porque acreditavam que lá poderiam traçar uma carreira literária. Isto ainda é necessário? É possível ainda uma carreira literária com tantos livros e autores que vêm e vão?

Edilson Pantoja – Eu não deixaria minha casa, os lugares de que gosto, meu chão, focado apenas no objetivo de fazer uma carreira literária. Pessoalmente, não creio em carreira literária.

Rudinei Borges – Que conselhos você daria a um jovem escritor?

Edilson Pantoja – Que leia bastante e tenha cuidado com a pressa.

Rudinei Borges – Quais são os seus próximos projetos literários? O que anseia?

Edilson Pantoja – Desde a publicação de “A Pedra de Babel” (2010), estou sem projeto claro. Há uma ideia que surgiu mais recente, mas não sei se vai dar em alguma coisa. Um título provisório: “Vizinho do Cão”. Escrevi duas páginas, por enquanto.

Rudinei Borges – Quando o conheci pessoalmente, na Bienal do Livro em São Paulo, tive a sensação de encontrar um ser humano esperançoso, um escritor invejável. Por fim, o que lhe faz ter esperanças na vida?

Edilson Pantoja – Para mim e para Cleide (esposa do escritor) também foi muito gratificante te conhecermos. Também tivemos impressão semelhante a teu respeito. Aliás, como sabes, adoramos teu “Chão de terra batida”. Tu és um próximo. Esperança? Muito mais um desejo, um querer. Que crianças carentes como eu e meus irmãos tenham acesso a boa Escola Pública, que a Educação lhes mude o destino. Isto é um modo de dizer: que elas, pela Educação, possam assumir o controle da própria vida. Como professor, aluno da Escola Pública a vida toda, é o que desejo e espero ajudar a construir. Quanto a mim, quero aproveitar a vida ao máximo, conforme os valores que defendo, e as escolhas que fiz e faço. Ter a proximidade dos amigos. A companhia dos próximos. São os sentidos que crio para mim. São meus olhos.

Marajupema, onde nasceu o escritor Edilson Pantoja
Marajupema, onde nasceu o escritor Edilson Pantoja