Felipe Garcia, poeta. O lobo afrontado ou a força verbal do insulto

|Por Rudinei Borges|

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.

(Hilda Hilst – Poemas aos homens do nosso tempo)

Em muitos lugares, diz-se que a visão noturna dos lobos é a mais aguçada da família dos canídeos. E diz-se – com algum encantamento – da audição aguçada destes animais: eles são capazes de ouvir a queda silenciosa de folhas das árvores durante o outono. São também capazes de viver nos lugares mais distintos, como desertos, montanhas, tundras, taigas, campos e florestas temperadas. Todavia, diz-se, sobretudo, que quando são afrontados é difícil aquietá-los. Os lobos atacam, depois uivam, numa voz lamentosa.  

O lobo afrontado evocado na poesia de Felipe Garcia desvela-se como multidão de vozes de um mesmo demônio enraivecido: “às vezes é só um verso”. E num só verso a vozearia doma a aridez do deserto – não como coro. São vozes distintas que rezam o mesmo mantra, a mesma cantoria sem Deus, desamparada. A estadia do poeta no campo longínquo e árido dura mais de quarenta dias: um morto que recusa sair do túmulo. É esta dialogia entre a escuridão das distâncias e a fome pela vida a matéria que compõe a poesia de Garcia. Entretanto, não há dor escancarada, pois o poeta sabe esconder em ponteiros virados qualquer espécie de berro e brado: a vozearia reza a salmodia dos sussurros, dos tubarões comidos no almoço, dos corpos destroçados, dos desesperos, das lembranças e, sobretudo, dos que sonham para sempre o sonho do nada. Há algo de apocalíptico na poesia de Garcia: “palavras são verdadeiras e fiéis”.

Um passado nunca exposto, paragem sem nostalgias, memória enlatada de quem foi, é o lugar de habitação do lobo afrontado, tecido – em fragmentos – pelo poeta como se ele e aquele animal se debruçassem, dia a dia, na construção de um labirinto, coração cheio de facas, onde há a cada metro feltro e ilusão. Ficamos, assim, defronte do que há de mais essencial no ofício do poeta: apurar o olhar tardio dos que vivem muito, ladeando sonhos futuros.

Só o poeta, em sua carpintaria de silêncio e sucatas, é capaz de prenunciar na pele dos olhos, diante de todos, a tessitura da utópsia, o ato-manifesto de arrancar a vista, como os pássaros fazem com a alvorada. Isto é, em chamamento da coragem, entoar a autópsia da vida e instaurar a utopia faminta. Mas para isso é preciso ter olhos de vômito, olhos de andorinha, atravessar a passagem do silêncio do tempo e só depois de feita a travessia reencontrar os olhos arrancados na infância. Só deste modo será saciada a falta do ventre – se não for impossível reavê-lo.

Este anseio urgente dos olhos que carregam armas flamejantes aparece em Garcia num erotismo ávido, numa luta corporal contínua, pois um canibalismo pulsante permeia a poesia de Cápsula. O fazer poético constitui-se quase sempre no corpo a corpo dos dedos pegajosos: “incendeia meus olhos/coça minha pele até virar carne”. É preciso satisfazer a fome, alimentá-la com sombras, amanhar olhares famintos. Parece-nos haver com afinco, na saliência da língua, uma boca que se movimenta, que tenciona sobre o corpo, sobre a pele. E, sobretudo, parece-nos haver uma boca que vomita o desejo de viver: “me faça dormir,/besta”.

O poeta Felipe Garcia de Medeiros.
O poeta Felipe Garcia de Medeiros.

Porém, a mesma boca devoradora é a que guarda preso o silêncio. Por isso, talvez paire aí a motivação para a precisão daninha. “Você pode criar um poema agora?” Esta é a indagação nos primeiros versos de “Você só fala em poesia”. O “agora” indicado no verso implica um tempo preciso, o presente, este instante exato, porque “o tempo passa/abanando/o/rabo”. À poesia cabe, com esmero, não só a lida pela libertação do silêncio, mas a sua decifração aterradora. Quem sabe seja esta a resposta do poeta. “Se eu pudesse abrir um buraco no peito/talvez/inundasse tudo”, escreve como se houvesse dentro de cada ser humano espécie de vazão infindável. O verbo abrir aparece como caminho para tais vazantes: “fiz facas/com a lâmina do destino, e abri corpos que não me pertenciam”. Neste sentido, manifesto no poema, só a vida – e suas sinas tantas – nos trará de volta, porque “a vida é/espaçadamente nua/em nossos olhos/cegos”. Abrir significa reencontrar esta força inominável que inunda a existência. Decerto, esta é a maior procura em Cápsula: a resistência da vida; a certeza de que, mesmo diante da voracidade da morte, a vida resiste: “os versos/na/necrópole volteiam/violetas luminosas no sol”.

Mas que fogueira acender com o silêncio liberto? Com o silêncio que pode arrebentar a boca e destroçar o mundo como berro e brado? Ter nas mãos a vida não significa vivê-la, eis o disparo certeiro de alguns versos: “Agora/eu não sei/onde viver/a vida inteira…” ou “O nosso/dia/está morto” ou “Perfeito para/vida só vale/o fim/fático/da felicidade em frasco”. Talvez seja ineficaz, contudo, a alquimia do poeta, o desejo de encontrar remédios para a felicidade, para o sentido amplo que a vida exige – ao menos quando vivida em sua plenitude.  O poeta, porém, em vigília, põe-se sempre atento à peleja humana, mesmo à deriva. A dor do ser em Garcia é a dor da própria palavra que tece o poema. É a própria palavra farta: “O meu corpo está cansado/como/o de cristo/na cruz”. O lobo afrontado em Cápsula é a poesia-vida mutilada que caminha entre escombros: “sobre nossos sorrisos a angústia/dissimulada/no verbo/que estava farto”. Neste novo livro de poemas, pós Frio Forte (2012), Felipe Garcia instaura uma poesia-via-crúcis como se pretendesse propor uma metáfora árdua da travessia humana – menos defronte da morte, mais da vida: “Estou esticado nos pontos cardeais”.  

A poesia-via-crúcis de Cápsula é constituída por poemas perfilados em quebras breves, versos curtos. Por vezes, uma vogal pode compor um verso ou uma palavra é posta em realce, separada das demais – nisto, decerto, o poeta adentra as inúmeras experimentações da poesia do século XX, sem perder a pessoalidade. Entre parafernálias da tecnologia contemporânea, ditames do cotidiano acerbo das cidades, Cápsula configura um livro-poema profético e psicodélico na maioria de suas trinta e uma partes. E também na maioria das vezes, a vozearia invoca silêncios, vazios e ruídos. Parece-nos, numa pintura abstrata, a re-união numa trincheira de vozes tantas, vozes que anseiam, em urgências, narrar a vida em perspectiva vária. Não a vida metafísica, mas a vida do café da manhã, do cuco absurdo que soa sobre o relógio do tempo, dos livros espalhados e do beija-flor retorcido nas ferragens: um cotidiano que intriga, muito distante do que encontramos em poetas brasileiros como Bandeira, Drummond e Quintana – à revelia de uma gramática explosiva do chão. Um cotidiano lugar-nenhum, entre curtos circuitos, de onde, em instantâneos, surgem epifanias de envergadura invejável, algo que só um Tomas Tranströmer soube construir.

Em que pese todas as referências poéticas do autor, o que aparece em alusões a Arthur Rimbaud, Dylan Marlais Thomas, Ezra Pound, John Keats, Paul-Marie Verlaine, Sylvia Plath e T. S. Eliot, é relevante notar alguma consonância, ainda que imprecisa, com a visceralidade da poesia de Allen Ginsberg, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Roberto Piva e Claudio Willer – mesmo sendo uma tentação perigosa qualquer aproximação. Nota-se uma visceralidade que resulta de um estado caótico de afrontamento. Uma visceralidade (o interno) devolvida à vida (o externo) em forma de vômito. Não uma visceralidade de antilírica engajada que exaure o que é próprio do poético, a metáfora, mas que se põe diante e adentra o que Hannah Arent delineia como feiura penetrante, “uma visão não agradável dos órgãos internos”.[1]

Nesta poesia antenada ao ordinário da vida, percebe-se um encarar profícuo da força verbal do insulto (ou o que podemos nomear força corporal do insulto) que sobressai numa entonação profética de sagacidade imensurável, algo que vemos com densidão em Uivo, de Ginsberg, e em Paranoia, de Roberto Piva.

Esta seiva visceral que deflagra a escuridão das distâncias e a fome pela vida está presente de modo muito peculiar na poesia caudalosa de Felipe Garcia: palavra na língua que aquieta lobos afrontados – às vezes.

(Prefácio para o livro Cápsula de Felipe Garcia. São Paulo, madrugada de 17 de fevereiro 2014).

Poema de Felipe Garcia

Entrevista

com

Felipe Garcia

Alzira Re[vista] – Um começo é sempre um começo. Uma parte de distância que habita a vida das gentes. Onde é que começa este fio-raio de vida chamado Felipe Garcia? Nasceu onde, em que paragens? Filho de quem?

Felipe Garcia – Nasci a 6 de fevereiro de 1989 – em Imperatriz –, Maranhão. Parece-me que foi à noite, pelo que consta nos documentos, mas não sei ao certo quando vi a luz do sol. Como todos que nascem, chorei. Minha mãe, Jaqueline, tinha o fundamental incompleto, trabalhou desde cedo sob o cinto cruel de uma família dura de Bacabal, cujo símbolo era o respeito conquistado através do medo e da violência. Conta-se uma vez que, na recusa do almoço, sua mãe a fizera engolir pedaços de sabão, além de pedir para arrancar-lhe todos os dentes para “evitar” esta praga, a cárie. Meus problemas com os dentes devem ter sua origem aí, não sei. Não cheguei a conhecer os meus avós maternos, mas me arrepiava ouvir tais histórias bizarras. Minha mãe não teve oportunidades, pouco estudou e se casou cedo. O encontro fora inusitado, Sérgio, meu pai, de Caicó-RN, viajou para o Maranhão e a conheceu. Era um jovem que tinha ideais de glória em outros sertões, mecânico, descascava ferro para colher o sumo do nosso prato. Era ignorante, rude e inteligente e às vezes sabia ser manso ante a grosseira a que viveu minha mãe. Transcrevo as palavras de Salinger, em Apanhador no Campo de Centeio, para imaginá-los: “não é isso que estou dizendo – mas são sensíveis pra burro”. Meu pai valorizou, desde sempre, o estudo e a leitura. Acima de tudo! Comprava livros infantis baratos, cheios de ilustrações, para eu ler e gostava de inventar histórias malfeitas do que vivera para nos distrair. Escrevia pouco, existem cadernos da época em que fazia registros dos nomes das pessoas da cidade e, em um deles, constava uma entrevista feita ao descobridor da cidade de Augustinópolis, “Augusto”. Dessa forma, nasci inesperado, como alguns clandestinos, e desde cedo me descobri desenraizado e senti um golpe sutil da vida. Imperatriz me cobria de viadutos, passado, história. A rua era vestígio de lembrança amarrada com o meu desconhecimento de tudo. Anos oitenta de meu empoeirado passado. O mundo em constantes alterações, crianças brincando em ruas de barro, desenhos de criança traduzindo meus sentimentos de criação (um boneco magro com uma cintura fina), meus velhos rabiscos pareciam transmitir o pensamento de uma época que chegava ao fim. Desenhei a bandeira brasileira, cantei o hino nacional na escola – com a mão esquerda no peito. Desconhecia o sentido de tudo isso, não era o mesmo entusiasmo patriótico traduzido pelos tempos românticos, obsoletos. O fervor da liberdade de expressão era realmente outro. Meu pequeno espaço me deixava tão seguro de mim. Atravessei ruas cheias de moda, panfletos, produtos, medo. Pela primeira vez, tinha transcendido a barreira do meu mundo. O retalhado socialismo sobreviveu à crise, mas foi derrubado junto com o muro alemão, que dividia dois pequenos mundos… Estive presente na ausência de tudo, meu presente instante remontou/confunde as lacunas do passado.

Anos oitenta de intensa poesia, o meu Farewell era de criança, pensei nele como uma ausência, como mais uma lacuna colocada na minha formação humilde. Fui enganado por um amigo mais velho, acontecem fragmentações de países no mundo, novas ordens mundiais, minha briga de menino pimpão. Os sentimentos do mundo estavam dentro de mim. Nunca me senti de lugar nenhum, de nenhuma terra, a nada vinculado; embora eu guarde afinidades eletivas com cada um dos lugares em que vivi – aprendi a ser uma “casa sem raiz”, uma “casa-cavalo” – como diria Drummond. Nas idas e vindas, já sabia que o homem não brota da terra, das espigas de milho ou da areia molhada do litoral. Nossos ossos foram triturados em alguma região subterrânea, que não nos pertence nem nos pertencerá, e assim vivemos desejando buscar o nosso destino terreno. De Imperatriz, fomos para Augustinópolis, Tocantins. Lá, descobri o mato, o brasis, as lendas e os mitos que cerceavam a vida daquelas pessoas, era encantado viver. Tinha traquejo para o desenho, desenhava o dia inteiro e, penso eu, foi esse o meu primeiro contato com a realidade e o simulacro, com o falseamento e o fingimento. As palavras escritas vieram “depois” e talvez haja uma relação íntima entre o que eu escrevo e o que eu desenhava quando era menor. As duas formas de eu me expressar demonstravam quase a mesma coisa: a criatividade e a curiosidade pelo estranho e inesperado. Por isso, nunca sabia o que desenhava nem o que escrevia; apenas os fazia. Em Imperatriz, me deslumbrava com aqueles viadutos se deslocando do chão; em Tocantins, me alegrava conhecer os quintais e as árvores, subi-las, brincar de pião, esconde-esconde, fazer pipa e me assombrar com o fim do mundo, porque lá era possível. A Dona Sinhá, uma velhinha “bruxa” que morava atrás da minha casa, incrementava o mundo mítico de Augustinópolis. Eram dois mundos interpenetrados – o velho e o novo –, o mágico e o real em um só. Tais estigmas marcaram minha vida até hoje como nunca mais. Se servir para parto ou para antigenealogia, creio que é preciso reconhecer que o Maranhão é terra de poetas, entre os mais ilustres, encontramos: Ferreira Gullar, Raimundo Correia, Sousândrade, Gonçalves Dias, Catulo da Paixão Cearense, Antônio Miranda. Mas eu digo não sou apenas de lá, como nenhum foi. Nascemos um pouco em cada lugar em que passamos e, como cada um deles, nós fazemos parte de tudo, dessa história e desse discurso que está sendo tecido pelo tempo através da Literatura.

Alzira Re[vista] – E de onde, Felipe, vem a tua poesia, a tua luta com as palavras?

Felipe Garcia – “Tudo pode tentar-me a que me afaste deste ofício do verso”, contudo posso dizer que não vejo outro caminho. A poesia era como uma espécie de ruído provindo de uma casa em reforma, como aquela batida distante e incômoda do martelo na parede, forte e penetrante. Estava eu lá, sem saber o que era aquilo, mas ouvia o som ríspido e profundo a perturbar todo o mundo no espaço. Aquilo era o ritmo. Havia, na forma como eu via o mundo, desde a infância, a presença de um ritmo diferente, dissonante do que se propagava na cabeça dos outros e nas ruas. De vez em quando, o som voltava como o tino do martelo, e eu pressentia que se alinhava ao ritmo do meu coração. Inevitável dizer que a poesia estava em tudo e sempre está. Os pássaros foram, talvez, os primeiros mestres dos poetas – depois vieram as ruas, as aventuras, as melodias feitas nas e das cidades ao longo da história. Em cada época, o poeta estava atento ao que via e ouvia. O meu primeiro contato com os viadutos maranhenses foi um evento de poesia, bem como os contatos imediatos com a natureza mítica de Tocantins. Não é nada paranormal, mas as coisas estão em comunicação intermitente conosco. Precisamos encontrar a forma de como transmudar isso em arte, mas não de forma imitativa, contemplativa ou representacional. É algo que nasce com o artista no processo de criação. Mas antes de comentar isto, devo dizer que despertei para o poético quando cursava Letras em Natal, na UFRN. Foi o momento em que a batida persistente do martelo tomava forma, e isto era ter “senso do poético”: a forma. As primeiras aulas de teoria literária e de Literatura ocidental de Medeiros – mestre e hoje doutor daquela instituição – foram responsáveis por me trazer o saber dos clássicos, de Homero a Shakespeare, em seus diferentes estilos e formas de fazer, além da obra inviolável, àquela época, Arte poética de Aristóteles, cuja força me fazia sentir importante ao falar e ao pensar em poesia. Eu imaginava: alguém se importava com a poesia e, mais do que isso, fazia-nos sentir que era um conhecimento importante, respeitado e considerado naquele período. Sem a intervenção de Medeiros, o Godot surgido em nosso curso, atualmente, eu não seria capaz de mudar o meu mundo por meio da poesia. A maneira como catava versos no ar e fazia inúmeras citações, abarcando toda a Literatura. Eu anotava tudo e tenho os cadernos daquela época, pretendia fazer um curso de Literatura, “fixava vertigens”. Tudo isso contribuiu para as minhas primeiras aventuras em verso e, da leitura da Ilíada e de Os Lusíadas, tive ideias extraordinárias de poemas relacionados às minhas andanças. Os meus poetas vieram da infância e dos clássicos – do meu olhar estranho para tudo, que necessitava de algo poético para ver. Os primeiros poemas que escrevi eram toscos, jamais imaginaria que fosse render algo, fazia tercetos (pois me impressionara com Dante) e relatava viagens mágicas ao shopping, como: “Ida ao Império Burguês com as Musas”. Lembro-me de como toda aquela ingenuidade me empolgava tanto e lia aquele poema, com quatro páginas, mil vezes, sem parar, entusiasmado. Depois disso, comprei um caderno exclusivo para enfrentar as palavras, com a capa do Homem-Aranha, e o chamava de “caderno poético”, bem como o lápis e a borracha, “poéticos”. Encarava a poesia como uma brincadeira, não tinha forma, mas tinha jeito de poesia. Não sei precisar quando, mas a coisa começou a ficar séria e, como era de se esperar, me senti impelido a fazer isso como uma razão de viver, sem a qual, nada mais teria sentido. Eu me afligia com a opinião de Bakhtin sobre o “discurso adâmico” e, por outro lado, com a ideia de “imitação” de Aristóteles. Li e estudei poesia, bem como as teorias de críticos e escritores sobre ela. Cada um tinha uma ideia plausível e absurda sobre o que era o “poético”, a “poesia”, o “poeta”. Fiquei aliviado, porque podia pensar de forma absurda também uma ideia de poesia e, assim, abandonei os preceitos de Aristóteles e um pouco o radicalismo de Bakhtin. De todas as teorias que havia contemplado, percebi que eu precisava encontrar um estilo e criar por meio dessa marca e maneira única de conceber poemas em verso. À época, conheci Rudinei Borges, que estava se descobrindo, e prestes a publicar Chão de terra de batida, que me empolgara deveras, pois ali via um grande poeta – que tinha um estilo seu. Para me descobrir, lia e comprava – com poucos recursos – qualquer poeta que eu visse, incluindo aqueles que eu tinha estudado, para conhecê-los, a sua poesia, a sua vida e luta.

"Frio forte", o primeiro livro de poemas de Felipe Garcia de Medeiros.
“Frio forte”, o primeiro livro de poemas de Felipe Garcia de Medeiros.

Desse período, conheci Maiakóvski, Rimbaud, além dos brasileiros, buscava incessantemente novos discursos em torno do poema e meu repertório de leituras estrangeiras não tinha fim, fosse poesia ou prosa. Fiz estudos e tentei me dar ao desespero de descobrir uma “voz” que havia dentro de mim – e creio tê-la encontrado, sendo esta a maior luta que tive com as palavras, tirando a vida inteira por cantar. Como escrever poesia passou a ser uma necessidade vital para mim – e cada poeta havia escrito o seu “grande poema” – isto se tornou o meu maior alvo: escrever grandes obras. Creio que todo escritor comprometido com alguma ordem que desconhece tem, em seu âmago, esse objetivo inscrito. O “make it new”, de Ezra Pound, era o mandamento que me guiava e ainda o carrego comigo como uma lei indelével. Sempre cri que tudo pudesse ser dito em verso, e assim o fiz quando pude. Para citar apenas dois exemplos, de milhares, de como tudo pode ser dito em poesia, pode-se ler: A porta, de Margaret Atwood e Cartas de aniversário, de Ted Hughes. O que falta aos poetas de hoje é dar conta de que isso é urgentemente possível em nosso tempo, e só podemos ser cegos à maneira de Homero. A minha poesia parece trazer algo do “cotidiano” – não esse cotidiano que os poetas atuais dizem escrever, que não tem nada de cotidiano (antes, tais poetas parecem produzir um amontoado de frenesis improdutivos, o pior da prosa dita “poética” e meio mundo de cópia infértil provinda de poetas antigos); o que esses ditos poetas “atuais” fazem é o que diz Bukowski: “é muito fácil parecer moderno/ enquanto se é o maior idiota jamais nascido”. O que há nos meus versos é um “cotidiano” em que convivem os signos de hoje em suas significações em profundidades, nas relações de perspectivas ímpares, onde transitam os paradoxos e as incoerências da vida, da palavra e da morte, todos concatenados ou em desalinho com um ritmo particularmente grave e sinuoso. Há o mitológico em meus versos, os fantasmas de diversas culturas que dialogam comigo, monstros, arquétipos, personagens de histórias esquecidas e não escritas. Ao lado disso, há uma Literatura dentro de várias Literaturas no meu verso, um conglomerado de existências que habitam cada verso em que convivo, cada voz que me ecoa e reboa em palavras. Aprendi a ser poeta, não me tornei. Fui condenado. Depois de descobrir um estigma, cada marca pareceu ser única e cada poema se tornou uma nova forma de eu me desconhecer – e isto é o que há de mais belo em Literatura, sem dúvida, o desconhecido. Devo parar por aqui, se não cometerei o pecado a que Horácio aludiu em sua Arte poética, enfim, queria que gravassem em minha lápide o verso de Alexandr Sergueivich Pushkin, presente em Eugênio Oneguin: “Soube ser poeta”.

Alzira Re[vista] – Quais são os teus itinerários de Pasárgada? Começou a escrever quando e onde?

Felipe Garcia – Para quem escreve, escrever significa sempre (re)começar. A busca pela expressão autêntica começou desde cedo e, em meados de 2008, havia escrito pouca coisa que representasse algo de valor para a poesia. Tentei imitar meu mundo de formas – tinha jeito para a simulação. Eu queria descobrir o Brasil – bem como fizeram os modernistas, pensava. Percorri os poetas, escutei as árvores à noite, a caminho, me perguntei sobre os fios elétricos, as ruas e os carros, e só ouvi uma voz rouca e clara vindo de um Cruz e Sousa, um simbolismo vago (que às vezes eu balbuciava nos ônibus), uma indefinição louca em Rimbaud – e uma musicalidade versátil em Verlaine. Àquela altura, um crítico dizia que Rimbaud tinha escrito o “incognoscível”, e eu murmurava frente ao espelho, tentando entendê-los. Foi um trauma. Quem seria capaz de escrever o impossível? Ele. Convivi séculos com o pequeno poeta francês e com as andanças de Quincey. Se eu for pensar em quando eu comecei a escrever poemas realmente, foi no segundo semestre de 2007 (ano em que iniciei o curso de Letras na UFRN), porque eu já tinha lido de ponta a cabeça Aristóteles, Horácio e Longino, e estava com o caderno poético a mil. Eu percebo que, mesmo sendo uma experiência não tão produtiva, naquele caderno eu já podia encontrar alguns vestígios do que eu iria escrever em meus livros, e a sua existência provou que pode haver uma reviravolta quando se trata de poesia e poetas. O caso de João Cabral de Melo Neto é vigente – basta ver seus primeiros poemas presentes em sua obra completa, bem como as primeiras canções de Eminem. O “início”, vamos chamar assim, foi bastante cruel, além de dificuldades passadas na cidade próxima a capital do RN, não tinha dinheiro o suficiente para comprar os livros que eu queria, convivia em um contexto social de minorias discriminadas, pessoas boas e cheias de histórias que me ensinaram bastante durante a via-crúcis em Parnamirim, que partilhavam um pouco da minha angústia naquele tempo de feras e fúrias – dando-me um pouco de alegria e ânimo. Alguns tinham curiosidade em conhecer as peripécias de Édipo, um ou outro verso de Caeiro e Bandeira, algo de genuíno da Literatura universal. Se formos pensar, não comecei a escrever tão “cedo” – como alguns beletristas dizem que começaram a escrever no berço. Embora já tivesse em mim uma forma diferente de ver, um senso, um traquejo, a escrita poética só veio surgir quando me afastei de casa, no curso de Letras já, quando a solidão se tornou a minha companheira, juntamente com os poetas, sobretudo franceses, e um punhado de teorias que atabalhoavam minha cabeça. Em minha busca pela terra prometida, só encontrei a mim mesmo – a combater, e depois descobri que o bem mais valioso era esse saber de si mesmo, mais do que um “conhece-te a ti mesmo”, mas, sobretudo, um “desconhece-te a ti mesmo” para (des)conhecer-me. O que eu buscava nos poetas era exatamente o período em que já não podiam se encontrar mais e que passavam a ter mais cuidado com eles mesmos, como se um desvio mudasse toda a rota do caminho, e eles – por um instante – encontravam o chão novamente possível e real em suas iluminações. Vale lembrar que Transa, de Caetano Veloso e Cabeça dinossauro, dos titãs, são belos desencontros. O maior desafio para quem começa a escrever é perceber que a poesia é, acima de tudo, uma maneira de (não) ser única, e precisamos dar corpo a isso, a qualquer custo.

Alzira Re[vista] – Os teus poetas-mestres. Diz-me sobre eles. Quem são aqueles que influenciam a tua poesia?

"Cápsula", segundo livro de poemas de Felipe Garcia.
“Cápsula”, segundo livro de poemas de Felipe Garcia.

Felipe Garcia – É difícil dizer, mas sei precisar. Alguns poetas são fundadores de poetas, ou seja, são precursores, os “mestres” a que aludiu certa vez Ezra Pound – e creio ser pertinente tal pergunta, uma vez que é preciso existir alguém que tenha nos incitado a pensar diferente e, mais ainda, a partir dele, a escrever diferente. Horácio Quiroga, em seu Decálogo do perfeito contista, em certo ponto, fala que se deve escolher um mestre para seguir o ofício da escrita, seja ele Poe ou qualquer outro, mas que seja eleito como um farol que há de guiar nas tormentas marítimas. O escritor não pode violar a sua sorte, pelo contrário, ele deve estar preparado para quando a intervenção desse ser ou sujeito surgir, e, a partir daí, a invenção acontecer, a mudança fazer girar a correia que roda os eixos da humanidade e novamente a Literatura voltar a oxigenar os ares poluídos de discursos cansados, recheados de beletrismo. Fernando Pessoa criou um poeta-mestre, além de muitos que confessadamente tinha, que era o Alberto Caeiro, para poder ver as coisas em sua visibilidade ímpar, e ver, apenas vê-las – como muitos pensaram em ver e ainda o pensam ilusoriamente. Esse poeta-mestre ou escritor precursor é o responsável por mudar a rotina de um saber, e na poesia, encontramos alguns deles na França, na Alemanha, nos EUA, enfim, em qualquer país pode-se encontrá-los como pilares da Literatura. Eles ultrapassam barreiras e, graças aos tradutores, que trazem esses raios-cintilantes para nós e levam para outros, que a Literatura vai tecendo os seus diálogos. Jorge Luis Borges, na Argentina, com as suas traduções de meio mundo de Literatura universal, reinventou a prosa e poesia de seu país, pois trouxe os recursos que havia nos clássicos e também nos contemporâneos para a realidade de uma Literatura produzida na América Latina, influenciando os seus intrinsicamente. Não podemos negar a importância dos tradutores para a reinvenção da Literatura de um país. Boa parte de minhas leituras são, claro, além de poetas de meu país, traduções de poetas estrangeiros. Creio que os poetas que mais me influenciaram diretamente foram: o trio francês (Baudelaire, Rimbaud, Verlaine); os brasileiros (Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, João Cabral de Melo Neto, Olavo Bilac, Pignatari, os irmãos Campos e Rudinei Borges); entre os americanos (Walt Whitman, e.e. cummings, os beats e Sylvia Plath); os portugueses (Fernando Pessoa e Mario de Sá-Carneiro); os russos (Maiakóvski e Anna Akhmatova). Além dos poetas épicos – Homero, Milton, Camões e Dante. Não daria para citar os “milhares” de poetas que li e que contribuíram para minha escritura, como Bandeira e Drummond, Keats, etc; afinal, existem poetas que são decisivos para nossa mudança, e penso ter feito uma seleção injusta para trazê-los. Creio que os mestres foram, respectivamente: Rimbaud, Maiakóvski, Walt Whitman, Fernando Pessoa e Sylvia Plath – a musa das musas. Todos os mestres e citados – alguns também não mencionados – escreveram poemas vitais, perenes e fundadores. A ideia de obra-prima, de grande poema, ou poema efígie, pode ser vista neles, bem como o conceito de livro-poema ou poema-livro. Não consigo perceber um livro de poemas soltos e sem conexão alguma, algo como um conjunto de poemas que resultaram num livro avulso, despossuído de ópera ou caosarmonia. No Brasil, um dos poucos poetas que conseguiam conceber essa ideia de livro-poema era Cabral e Drummond – sendo este especialista em dar títulos para as suas criações. Folhas de Relva é um livro-poema ambicioso, permeado de multidões, de paisagens, de poesia, cosmo e poeira – é fonte de poemas intermitente; a obra de Fernando Pessoa é um poema-vida, ainda mais se pensarmos nos heterônimos, porque não havia condições de publicá-los, porque os vivia a cada momento e não poderiam formar um “livro” até que a vida se exaurisse; Rimbaud, inevitável citá-lo, é o mestre em fazer o grande poema de uma carreira, a grande obra, como tudo o que escreveu – cada linha, sem sabotar a sua arte, tem importância vital para a Literatura; Maiakóvski, além de Rimbaud, também viveu a poesia – a respirou, a cantou sem frescuras e sem trocadilhos bobos, sem marginalismo barato, sem decadência espúria, sem choro de madame nem poema de amor esdrúxulo. O poeta russo colocou sangue entre as pernas dos poetas! Aniquilou meio mundo de poeta afetado pela produção de uma autoimagem defasada e pela atitude “performática” tola, mostrando que poeta é aquele que escreve – realmente – livre de uma forma castradora, pré-concebida, e não aquele que parece saber escrever, porque imagina ou sonha “romper” as convenções da gramática. Só os grandes fizeram e fazem a quebra da sintaxe e das estruturas da língua com maestria singular, de tal que forma que imitá-los é passar-se por mendigo, diante de tanta inventividade. A minha querida Plath praticamente mudou minha forma de ver a poesia. Ela foi responsável por minha reviravolta na escrita, sem ela, talvez não existisse Felipe Garcia como poeta – e penso que ela fez o que poucos poetas fizeram ou fazem com êxito: colocar e cantar o corpo em sua poesia. Enquanto os artistas sonhavam ou imaginavam o que era ou como podia ser o corpo, ela sabia – e foi vidente, e foi além na composição de sua carne-canção poética: trazendo sua anatomia fantasmagórica, seus monstros reais e suas transmutações violentas de lembranças redivivas e de vivências mórbidas, estranhas, humanas, numa presentificação do corpo jamais vista antes em Literatura. Fernando Pessoa desconstruiu o corpo, era vários, bem como os grandes poetas modernos. Mas, como me agrada imaginá-la! O seu corpo me concede mais um pouco de verso e tenho uma boca para respirar no escuro.  

Alzira Re[vista] – Que livros marcaram de modo decisivo a tua escrita?

Felipe Garcia – A lista pode ser infinita como a fração do espaço – embora eu possa delimitá-la. Como disse anteriormente, terei de cometer outra injustiça, quiçá fatal – contudo necessária e imediata para este momento. Falarei de forma ligeira, então, o que me veio à cabeça assim que pensei quando me surgiu a ideia desse “momento decisivo” ou dessa mudança de olhar para as coisas a partir do contato e da convivência com essas obras. Em relação à prosa, posso dizer: O Ateneu, de Raul Pompeia, Quincas Borbas, de Machado de Assis, Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, o teatro grego (Eurípedes, Sófocles, Ésquilo), Crime Castigo, de Dostoiévski, O grande Gatsby, de Fitzgerald, um bocado de filósofos, sobretudo os pré-socráticos e o famoso trio (Sócrates, Platão, Aristóteles). Não posso me estender mais, infelizmente, contudo reconheço também a importância dos contistas para a (de)formação do escritor de poesia. Os contos têm algo de poesia em sua concepção, e creio que até mais do que os romances e as novelas – pela temática, forma e extensão. Assim, pelo que falei a respeito dos poetas e de seus livros, serei lacônico ao responder a pergunta a partir deste momento. Além dos demais, de forma decisiva: Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos, Broquéis e Faróis, de Cruz e Sousa, Cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto, Flores do Mal, de Baudelaire, Uma temporada no inferno, de Rimbaud, Romance sem palavras, de Verlaine, Poemas, de Maiakóvski, Folhas de Relva, de Walt Whitman, Alguma Poesia, de Drummond e Ariel, de Sylvia Plath.

Alzira Re[vista] – A tua poesia em livros como se deu? Quais livros teus foram publicados?

Felipe Garcia – Ser poeta não é dom, é uma condenação – das mais inusitadas possíveis, como um escritor que sai do exílio/prisão dilacerado e, em sua volta, retorna vigoroso/consagrado ao libertar-se no poema. Ezra Pound fala que somente um poeta pode criticar outro – um reconhece o outro e, ambos, se impressionam com a fluidez e originalidade da expressão verbal.

Para responder a esta pergunta, terei de fazer um longo retorno – porque é importante para a questão.

Felipe Garcia de Medeiros nasceu anônimo, por isso mesmo, especial, sem que seu nome fosse posto na mídia, nos letreiros. Lembro-me de poucas coisas desse período – só me recordo de alguns viadutos que me encantavam e uma latinha vazia de cerveja perto de um matagal quando eu passeava pela cidade, além dos parques de diversão, e do brinquedo que eu mais adorava: a roda gigante. Quando fecho os olhos ainda tenho aquela mesma visão que tinha quando estava no ápice do brinquedo: as luzes da cidade como as estrelas no universo, o coração aflito e cheio como os olhos daquela irrevelada visão. Não sei o porquê, mas comecei a desenhar desde quando aprendi a pensar com as mãos – e reproduzia os bonecos que eu via TV, e era tão alegre fazê-los que eu já ignorava toda a ciência e a anatomia. O mundo mudando, meus desenhos traduzindo traços de criação.

Mas foi em Augustinópolis, Tocantins, que passei a fase de ouro da minha infância: vivendo em meio ao mato e à rua numa estranha mistura de paisagem mítica/mística e real. Nessa lugar, era mágico viver. Duas ruas cortavam a cidade de ponta a ponta, cinzentas, e um canteiro verde/longo/com campinhos de futebol perto da casa onde eu vivia, mais adiante uma ruazinha fazendo uma pequena cisão no conjunto, postes até não se acabar mais, e mais adiante quitandas, mato, barro/mato, cada cenário compunha o trajeto; eu pensava que aquelas duas ruas cortavam o mundo e, se eu começasse a percorrê-las do início ao fim, talvez eu encontrasse outros lugares fantásticos. Não li Machado de Assis quando moleque nem Homero.

Vivi histórias de menino como se eu estivesse perdido/vagueando em uma fábula e vivesse/transformado numa peste, ora num anjo ou numa lenda, com medo ou coragem. Não havia limites para mim: eu subia em pés de árvores grandes, aqueles pés de manga frondosos, os de goiaba, os de ingá, os de jaca e passava a tarde fazendo arte/como um menino. Onde morei, realmente existiam quintais (com lonjuras quase/ e quilométricas) – e cada casa possuía o seu, como se fosse um sítio particular no fundo de cada moradia, com direito a tudo: árvores, matos, bichos, cercas, riachos, insetos, pés de banana e de cana-de-açúcar, pra todo lado se via paisagem, cascas, beija-flor, cobra/bicho/menino – e danação. Vi seres de folclores se escondendo atrás do pé de Jaca, pica-paus no topo de um pé de manga, uma velha sendo possuída por um espírito. Naquela época, tudo era visível. E a sabedoria popular da cidade era semelhante à da idade média: aquela mistificação. Minha infância em Augustinópolis foi rica, pois foi lá que eu aprendi que a verdadeira imaginação residia em mim mesmo – com o meu desconhecimento de tudo. Fazíamos aventura pelos quintais, jogávamos videogame, subíamos pés de árvores, comendo frutos, correndo, fazendo armadilhas/arapucas com cordinha, atravessando os riachos, e sonhando com um sol mais amarelo, com medo das lendas, inventando casinhas nas árvores/ no mato e chupando cana-de-açúcar logo de manhãzinha, quando os passarinhos pintavam o dia com o seu canto de massagear o coração com a pluma.  Planejei um livreto de versos para reunir e publicar bem depois, revivendo/deslocando/inventando essas experiências/estranhas/pueris/lúcidas e lúdicas, cujo título carrega o nome deste poema que fará parte dessa obra: Chiano. O que era literatura/eu não sabia nem imaginava que existia. É difícil imaginar alguém que sonhe ser poeta e, mais do que isso, leve a sério essa profissão de fé a ponto de se convencer de que possui uma missão para com a humanidade, inadiável, vital e necessária – sem a qual o escritor escolhido não poderá jamais fugir/abandonar/ou deixar de realizar tal objetivo sem que tenha alcançado os níveis de escrita exigida pelos mestres. Rimbaud abandonou a literatura porque tinha ciência da magnitude do seu feito em arte (redenção/sacrifício) e, portanto, estava livre a tempo de não exigir mais um segundo sequer da finitude para se estabelecer na eternidade.

Uma das minhas primeiras composições em verso (logo quando entrei na universidade), um longo poema dividido em sete partes, foi Adamo – uma tragédia narrativa, sem plano de primeira/segunda/terceira pessoa definido, contando uma história de um jovem em coma que contrai um amor fantástico, surreal indo para outro mundo. Na época em que o escrevi, fazia pouco tempo que eu começara a conhecer os mestres da literatura universal/da filosofia/do pensamento, e então, resolvi comprar um caderno (o Caderno Poético) para poder escrever tudo o que eu quisesse em verso. Ele foi como uma espécie de laboratório para mim, sanatório/palco/picadeiro. O Adamo me alegrou deveras e me motivou para continuar a escrever cada vez mais. Eu lembro que o li várias vezes, sempre pensando em mudar, fazer mais, ajustar. Ainda estou pensando em ajustá-lo para uma versão definitiva – trabalho futuro/necessário. Nesse meio tempo, não abandonei o desenho, e comecei a desenhar no PC frequentemente – no paint.

Quando comecei a escrever poesia com afinco, com um objetivo maior, e levei a sério (de acordo com o ritmo em que eu escrevia em verso, isso aconteceria um dia) – passei a escrever demoradamente, sem me preocupar com o número de produções, deixando de ser aquela velha máquina enferrujada de compor versos/métricas/estrofes. Passei a ler de tudo, sobre qualquer assunto e, sobretudo, tudo quanto era poesia e poeta espalhado no mundo. O Caderno Poético inundava-se de poemas, dos mais diversos temas e formas e ritmos e, depois de pensar bastante, um dia, decidi abandoná-lo, ao escrever um poema nele registrando essa partida temporária com o título: Revolução. Vivemos a tragédia da nossa própria eternidade.

Durante esse longo percurso para descobrir-me como poeta, acabei encontrando pessoas que se tornaram essenciais para mim (na academia e na vida) e, uma dessas pessoas, um habitante do Pará que partiu para São Paulo, foi Rudinei Borges – um poeta/de nome/e verdade, aliás, que aposto muito para a composição de uma nova poesia brasileira. Há nesse jovem uma grande potência verbal/ e poder de expressão que difere do que se produz e se fez em poesia no país. Lembro-me que o conheci numa comunidade virtual, há algum tempo, e, desde o início, via nele alguém diferenciado/especial – capaz de ir além das suas próprias limitações, e Rudinei Borges, assim como dizia Antero de Quental: recebeu o batismo dos poetas.  E, nas suas palavras, declara: o verso é meu ofício. Ao saber um pouco mais da sua vida, percebi que tivemos uma infância parecida: vivemos no mato, entre a rua/o nada/ e o beco/os bichos/as cabaças e os bagaços/entre o mormaço e a torneira/chuveiro na beira do quintal/ – numa região mágica/verde e infante/ com bruxas e cafés nos pés, bananas e aventuras.

Acreditei na inovação da poesia brasileira e, juntamente com Borges, caminhamos em direção ao sonho, para esse dia/inevitável/próximo, quando os novos poetas surgiriam – providos não só de jogos interessantes/triviais com palavras, fórmulas miméticas/Procusto/leis/estética/movimento/trocadilhos/bafos e neurastenias narcísicas; mas de uma expressão vital/humana e divina no instante em que o verbo, se fazendo carne, surja em nossas mãos como um ser vivo. E, no inesquecível dia 11 de agosto de 2011, o poeta Affonso Romano de Sant’anna, deu-me a mão – pois as palavras de um poeta são como uma mão – ao dizer o que inicia esta vida de homem/e de poeta. Foi a partir daí que pensei em publicar, inevitavelmente, um livro.

Publiquei Frio Forte então e, neste ano ainda, sairá o segundo: Cápsula.

Alzira Re[vista] – Li o teu primeiro livro, um trabalho inicial de fôlego. Conte-me sobre “Frio forte”. Como foi e o que é a tessitura deste livro?

Primeira edição do livro "Frio Forte" de Felipe Garcia.
Primeira edição do livro “Frio Forte” de Felipe Garcia.

Felipe Garcia – A primeira coisa que devo dizer é que os poemas surgiram graças à existência do meu velho notebook cinzento. Depois que passei a digitar, comecei a perceber e a escrever poesia de outra forma, de uma maneira que jamais havia sentido ou feito. Digitamos como pianistas, e há algo de musical nisso. Em relação ao livro de poemas Frio Forte, é complicado afirmar a respeito de sua tessitura, já que estamos falando da opinião de um autor que escreve poesia; lembro-me que o escrevi em um semestre, no segundo semestre de 2012. O primeiro poema que foi escrito por Felipe Garcia de Medeiros, já de uma maneira sua, foi “O Plano”. Daí, os outros surgiram. Quando rememoro os poemas, sinto que F.F. é um livro mágico, há algo de encantatório naqueles versos. Ele foi o resultado de minhas buscas e experiências, que resultou nesse platô intensivo em que se tornou em livro. Embora haja um conceito que construa o livro e reúna os poemas sob um título – ideia essa que não significa harmonia, ou completo caos (pois que há uma estranha ordem no caos de acordo com a física quântica), posso dizer que uma ideia transparece com mais vigor e apresenta um panorama do que a obra propõe para o público, que o conceito que está no âmago da obra, vibrando: o da renovação da poesia brasileira/nos aspectos temáticos e formais. Sem exageros, na medida. Esses poemas não têm como objetivo entrar na literatura sob as características pitorescas das coisas novas que estão surgindo, dos modos de se relacionar, sentir, pensar, agir, etc. Eles são uma tentativa de encontrar algo “essencial” (encontrando uma relação profunda entre o homem e as coisas) neste mundo atual que – ao mesmo tempo em que atinge o âmbito superficial dos elementos numa referência direta e consciente, como é o caso de nomes/produtos/objetos que permeiam nosso presente século, cresce também o interesse pelo passado – numa recorrência voraz ao inconsciente. Outro ponto é profundamente concatenado: o sentido que tais seres o coisas adquirem para além da utilidade, e da desumanidade aparente das máquinas. Poderá o poeta compreender a dimensão de sua própria importância? A diferença da verdadeira literatura para a literatura banal é uma só: o balé da forma. Quando o conteúdo e a forma se tornam indistintos – eis a Literatura. Enfim, o conceito que se passa no livro é o da novidade na nossa literatura de hoje, de uma nova forma de se expressar, novos conteúdos e desafios, além do dilema do ser poeta ser explorado com íntima profundidade/apontando para novos rumos no caminho poético. Isto é o que tece o livro-poema em questão, assim é como vejo o fazer poesia.

Alzira Re[vista] – Por que este título, “Frio Forte”?

Felipe Garcia – Lembro-me que eu tinha os poemas, mas faltava o título. Quis sonhar com esse “nome”, mas não consegui! Ainda bem que ele surgiu, e fez saber um novo livro. O título do livro Frio Forte significa um milhão de coisas das quais me fogem a todo instante e que me surgem – como espanto. Na verdade, pensei em diversas ideias para o título, contudo, ele apareceu nos poemas e se impôs. “Frio Forte” também é bastante expressivo, e dialoga com os poemas, problematizando-os e dando-lhes um caráter de unidade. De fato, o título pode ser considerado uma ótima síntese para o livro, e uma excelente alegoria – não só para o livro, para os poemas, mas para a nossa vida, o nosso tempo, o nosso século. Frio Forte significa poesia/e vida – na sua dupla articulação, indefinida e contínua – e a era do gelo dos tempos atuais. 

Alzira Re[vista] – E do teu segundo livro, “Cápsula”, conta-me também?

Felipe Garcia – A partir do título do livro, poderei tentar dizer um pouco sobre ele. Creio que é uma amostra de como o impossível acontece. Cápsula. A densidade do livro e o ambiente caótico em que se instalam os seres lembram cores metalizadas, soturnas e sáxeas. Sempre penso que tudo acontece à noite e no arrebentar da alvorada – nesses dois extremos, como um Alfa e Ômega. No livro, esses tempos se alternam como uma contusão incessante na retina. Quando penso no título do livro, imagino, primeiramente, os seus inumeráveis sentidos literais:

substantivo feminino

  1. [Botânica] Invólucro de certas sementes.
  2. Membrana que envolve as articulações de certos vasos pequenos do corpo.
  3. Evaporador de certos aparelhos de química.
  4. Vaso de laboratório de forma arredondada.
  5. Glóbulo gelatinoso ou pequeno recipiente ingerível em que se encerra um medicamento.
  6. Pequeno recipiente metálico no qual se encerra a massa fulminante que se faz detonar nas armas de percussão.
  7. Invólucro metálico que cobre a rolha e uma parte do gargalo de uma garrafa.
  8. Invólucro solúvel que encerra medicamento de gosto desagradável para ser mais facilmente ingerido.

“cápsula”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013. 

A poesia é uma espécie de conhecimento “encapsulado”, que contém o infinito na sua extensão verbal breve e expansiva. A cápsula é o eterno retorno dos temas que geram multiplicidades, a cura, o remédio ou a loucura de um homem sonhando corpos. Outra ideia que me vem à cabeça é de uma cápsula espacial, nada tão exagerado quanto na ficção científica, mas no sentido fantástico das grandes navegações. Existem vários poemas no livro que trazem essa (espaço)nave em seus momentos de ascensão e queda – frementes, reais, futuristas, fantasmagóricos e lendários. O Sol é outro elemento vivo no livro. Pensei no calor, nas grandes cidades, nos personagens febris da nossa natureza (des)humana, que por vezes nos atinge como besta e, de súbito, como anjos da alvorada. Seres soturnos rodeiam o livro, seja “O Barba Azul”, o “Sr. Ninguém”, o próprio “Pazuzu” ou mesmo “Rimbaud”. É “O Lobo Afrontado”, o meu lobo frontal em pane. Imaginar como seria a capa é realmente um grande desafio. Há o futuro no livro, algo futurista, no sentido de UFO, UFUTURO estranho, desconhecido. As grandes palavras são, além da definição literal:

CIDADE TUMULTUADA – SERES – SOL – NAVE – NOITE – CÁPSULA

Esses lugares reais e turvos, não a utopia ou a autópsia do autor, mas a Utópsia, lugar algum algures alguém.

Alzira Re[vista] – Diz outra coisa: como a tua formação em literatura e o fato de ser professor influenciam em teu ofício literário?

Felipe Garcia – Ser professor, sou formado em Letras português e literaturas, me ajudou a não abandonar a Literatura. É o meu oficio ensinar a língua e a literatura, é a minha vida, o meu ganha pão. O que escrevo é algo além disso, que se aproxima de tudo em que acredito. Quando comecei a lecionar e receber um pouco de dinheiro, pude comprar os livros que sonhava e, ainda mais, dei continuidade à minha vida de escritor sem me preocupar em escrever uma literatura com uma finalidade utilitária, quer dizer, pude me dedicar ao meu projeto literário sério, independente se venderia ou não, se atendia às reproduções do mercado ou não. Assim, o fato de eu sempre pesquisar e buscar coisas novas para meus alunos, fazendo leituras, interpretações, provocando e instigando, estou em contato direto com a Literatura e com a língua. O que é curioso nos currículos, que venho percebendo, e nos PCN, é que existe praticamente uma tentativa de “diminuir” cada vez mais o espaço da Literatura no ensino, o que é uma tristeza, porque não temos um público-leitor forte em nosso país e os poucos que existem não valorizam a Literatura, caindo – de cabeça – no conto do best-seller. Em relação à minha profissão, acabo conhecendo diversos alunos que escrevem poesia também, e nós dialogamos bastante, e muitos têm talento, são passíveis de uma condenação, sem dúvida. Nesse sentido, atravesso o tempo a pensar tais coisas como um sentido de vida, sem o qual estaria desligado – totalmente inerte e sem direção.

Alzira Re[vista] – Como é a jornada de um jovem poeta no norte do Brasil? Sente, por ventura, algum distanciamento da suposta vida literária que se estabelece no sudeste do país?

Felipe Garcia – Sinceramente, tranquila. Eu é que ando agitado com minhas tragédias. Gosto de não pertencer – habito heterotopias e espaços lisos. Do pouco que conheço da literatura feita no norte, não me atrevo a falar, sequer, uma palavra sobre ela, uma vez que seria injusto citar um ou dois exemplos. Para não cair na crítica risonha ou medonha, tenho a dizer que aqui existem bons escritores ainda desconhecidos e não publicados, que não andam em círculos literários viciosos, que não conseguem oferecer favores a jornalistas nem querem, para divulgar – uma vez ou outra – a sua obra. Nesse sentido, a internet ajuda muito a expor esse trabalho marginalizado, mas o público brasileiro ainda erra o dedo na pesquisa. Por incrível que pareça, no que toca o sudeste do país, me sinto – não quero pertencer a esse espaço também, só pra constar – bem próximo a várias pessoas, inclusive, os meus livros foram publicados lá. Tenho grandes e distantes amigos lá, como o já camarada Rudinei Borges, além de vários outros que me apoiaram nesse processo de luta-escrita e escrita-vida do meu projeto literário interminável. Consegui esses contatos graças à internet, e pude ver mais sobre a Literatura nova do que qualquer um que fechou os olhos para ela.

Alzira Re[vista] – O que percebes como notório na vida literária do Brasil atual?

Felipe Garcia – Creio que existe uma divulgação maior de qualquer tipo de material – e isto é notório –, porque, ao lado disso, pode-se perceber uma vontade de escrever algo que possa ser dito como literatura e uma percepção do que o que está sendo publicado pelas grandes editoras ou por aqueles escritores chateados de ganhar prêmio não representa nem representará o nosso tempo. Tudo isso é bom, ainda mais quando se nota uma distância considerável do que é realmente interessante, daquilo que não interessa mais a ninguém, e já está cansativo de se reproduzir. Outro ponto é que o acesso às leituras está bem maior, e os novos escritores, aqueles mais interessados em ler mais um pouco ao invés de sair escrevendo qualquer coisa por aí, estão se esforçando por conhecer os clássicos, os poucos lidos, os marginalizados, enfim, conhecendo os processos de escrita, as estéticas e os movimentos passados. Tal conhecimento ajuda a muitos a perceberem que o que se escreve, em sua grande maioria, não é nada tão novo quanto parece e, sobretudo, o que se escreve com pretensões é totalmente extirpado da história da Literatura. Dado esse conhecimento e a partir dessas leituras, assim, a arrogância natural de cada jovem escritor vai perdendo as pernas, e eles se esforçam por procurar uma nova saída de ar – e trazer mais ares para a Literatura recente.

Alzira Re[vista] – Tens esperanças em tua literatura? Tens esperanças que ela chegará aos leitores?

Felipe Garcia – Se tenho esperança? Eis o meu lema: “Não viveu em vão o homem que encontrou o caminho ao fim da vida”. Sem dúvidas a minha Literatura já chegou aos leitores. Conheço alguns que leram e gostaram daquelas imersões.

Alzira Re[vista] – Onde estará Felipe Garcia daqui a 20 anos?

Essa pergunta me fez lembrar dos versos de Mário de Sá-Carneiro: “Daqui há vintes anos minha literatura talvez se entenda”. Até hoje não a entendemos, mas a lemos e a sentimos como se fosse hoje, e isto é bom, como haver vida para viver o resto dela. Não sei aonde estarei ou como, mas tenho uma certeza: só vou parar de escrever quando eu atingir o silêncio e isto é tudo.

Alzira Re[vista] – Acreditas em Deus?

Felipe Garcia – Sim.

Alzira Re[vista] – Uma pergunta ingênua. É preciso fazê-la, todavia. Se fosse preciso salvar um livro, apenas um livro, qual seria?

Felipe Garcia – O livro por vir – com certeza, o salvaria.  

[1] Arendt H. The life of the mind. v. 1. Thinking. New York: Harcourt Brace & Company; 1978.

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+ Rudinei Borges – Poeta, dramaturgo e ficcionista. Autor dos livros “Chão de terra batida” (poesia), “Dentro é lugar longe” (dramaturgia) e “Teatro no ônibus” (pesquisa). Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Formou-se em Filosofia. Ator e diretor do Núcleo Macabéa. Editor da Alzira Re(vista). Nasceu em Itaituba, Pará.