Fogo cruel. Uma entrevista com o diretor Claudio Marinho

| Texto por Rudinei Borges | Foto por Christiane Forcinito |

O ator deve trabalhar a vida inteira, cultivar seu espírito, treinar sistematicamente os seus dons, desenvolver seu caráter; jamais deverá desesperar e nunca renunciar e este objetivo primordial: amar sua arte com todas as forças e amá-la sem egoísmo.

(Stanislavski)

Na entrevista de novembro, a Alzira re[vista] visita o universo de criação teatral do diretor e ator Claudio Marinho, da Cia. Fé Cênica. O diretor está em cartaz, em São Paulo, com a peça Fogo cruel em lua de mel, do dramaturgo Nazareno Tourinho, que conta com as divertidas atuações de Viviane Bernard e Geraldo Machado. A seguir, podemos acompanhar a conversa com Claudio.

Alzira Re[vista] – Claudio, como aconteceu a sua aproximação com a dramaturgia de Nazareno Tourinho (1934), importante autor paraense, e como se deu a escolha desta peça inusitada, Fogo cruel em lua de mel?

Claudio Marinho
O ator e diretor de teatro Claudio Marinho

Claudio Marinho – Fogo Cruel em Lua de Mel foi o primeiro texto teatral que li. Foi em 1990 e eu tinha 17 anos de idade.  Na época fazia um curso técnico de Mineração na Escola Técnica Federal do Pará e iniciava no grupo de teatro da escola, com direção de Claudio Barradas. Lembro que fui à biblioteca e pedi para ler uma peça de teatro e a bibliotecária me sugeriu o livro do Nazareno Tourinho.

Em 2002 fui convidado para atuar na peça Nó de Quatro Pernas, do Nazareno, e tive a oportunidade de conhecê-lo. Logo depois atuei no curta Severa Romana, adaptação da peça homônima dele, e começamos a estabelecer mais contato. Naquele momento reli Fogo Cruel em Lua de Mel e observei mais detalhes, principalmente a contradição tão forte mostrada pelas personagens, a questão existencial que o autor coloca na tragicomédia.

Em 2006, já morando em São Paulo, estava interessado em começar a produzir e pretendia atuar na peça. Já sabia que teria os direitos autorais porque havia conversado com o Nazareno. Então chamei o ator Geraldo Machado para ler o texto porque queria a opinião dele e a resposta foi a mais surpreendente: “Gostei do texto, acho que você deve produzir. Mas eu quero atuar e acho que você deve dirigir!”. Assim Geraldo Machado “roubou” o meu papel, me deu a oportunidade de dirigir uma peça pela primeira vez e com ele criei a Cia. Fé Cênica.

Percebemos que o texto nos oferecia material para pesquisar o trabalho do ator no limiar entre o drama e a comédia. Observamos que a partir da parte cômica era possível acessar o público para, em seguida, tratar de forma mais contundente outras questões: o sentido da vida, a morte implacável, o que fazer com nosso tempo, o que fazer com nossos sonhos e desejos. Estas percepções alicerçaram a nossa escolha naquele momento.

Alzira Re[vista] – Tenho grande interesse em saber do trajeto de encenação da peça. Num outro momento, você me contou que já havia montado anteriormente este texto do Tourinho? Como é revistar um de seus primeiros trabalhos como diretor?

Claudio Marinho – A montagem estreou em 2007 e fizemos várias temporadas até 2009. Uma das temporadas durou nove meses seguidos e isto nos deu a oportunidade de perceber mais claramente como se dá este trânsito do ator entre cenas com “climas” totalmente diferentes, divergentes mesmo. Durante estas temporadas foi possível perceber que a peça se comunica com um público muito amplo, independente da formação escolar, idade, classe social. Isto nos estimulou a continuar com a peça e observar mais atentamente o trabalho do ator nos gêneros tragicomédia e comédia dramática.

Embora tenhamos encenado outras peças, Fogo Cruel em Lua de Mel sempre nos chama. Agora tivemos dois motivos para remontar: a comemoração pelos 8 anos de atividade da Cia. Fé Cênica e também comemoração pelos 80 anos de idade do Nazareno. O autor diz que podemos fazer a peça enquanto sentirmos vontade.

Revisitar é buscar sentido para o trabalho. Durante os anos em que não apresentamos esta peça continuei me perguntando se fazia sentido para nós e para o público. Acho que este questionamento nos amadurece. A escolha de fazer ou não precisa ser honesta. Até aqui é honesto e faz sentido.

Neste momento estamos trilhando novos caminhos. Estou encenando uma peça infantil, Lendas, para que te quero!, escrita por Geraldo Machado a partir de uma pesquisa sobre lendas indígenas amazônicas. Também estamos estimulando o contato com  novos dramaturgos para construir outras relações de trabalho, para buscar outras referências. Penso que é um momento de transição que resultará em espetáculos bem  diferentes do que fizemos até agora. Diferentes em tudo: na temática, no gênero, na estética.

Alzira Re[vista] – Conta-me de seu itinerário no teatro, passagens pela atuação e pela direção. Tudo começou em Belém?

Claudio Marinho – Tudo começou em Belém e lá eu só atuava.

Logo depois de começar no grupo de teatro da Escola Técnica Federal do Pará, entrei no Grupo de Teatro Gruta, com direção de Henrique da Paz. Era uma fome de teatro absurda! Saía do ensaio de um grupo para ir ao outro. O grupo da escola, dirigido por Claudio Barradas, era um ambiente onde fazíamos muitos exercícios e poucas apresentações. Ao contrário, o Grupo Gruta mantinha um firme diálogo com a cidade realizando temporadas.

No Grupo Gruta tive contato com a dramaturgia de Sófocles (Antígona), Molière (O Tartufo), Heiner Muller (Hamlet-Machine).

Depois disso fui fazer o Curso de Formação de Ator da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará. Nesta fase de formação fiz A Bicicleta do Condenado, de Fernando Arrabal; Marat-Sade, de Peter Weiss; As Bacantes. A Escola de Teatro tinha a feliz prática de colocar os alunos em contato com o público. Éramos alunos, mas vivíamos a experiência de entrar em cartaz. Havia os exercícios realizados restritamente na escola. Mas as temporadas eram muito comuns. Por isso vivíamos a rotina de um grupo de teatro. Sou grato aos meus professores por estas experiências que me servem até hoje.

O exercício na direção foi iniciado em São Paulo e, até o momento, dentro da Cia. Fé Cênica. Além de Fogo Cruel em Lua de Mel, dirigi também As Ruminantes, de Saulo Sisnando; Perfídia Quase Perfeita, de Carlos Correia Santos; e a inédita Lendas, para que te quero!. Além destas peças, também produzimos a peça infantil A Fábula das  Águas, com o diretor convidado Rodrigo Palmieri.

Alzira Re[vista] – Fé cênica, o nome de seu grupo, tem um sentido amplo, como ação na cena e mesmo como ação de acreditar nas potencialidades do teatro. Entre idas e vindas, muitos acontecimentos movem a história deste grupo. Conte-nos.

O ator Geraldo Machado na peça "Fogo Cruel"
O ator Geraldo Machado na peça “Fogo Cruel”

Claudio Marinho – A escolha do nome se deve exatamente por este significado que você mesmo atribuiu. O nome está relacionado com a ação na cena, com a capacidade do ator em acreditar na realidade da personagem como se fosse a sua realidade. É o termo criado por Stanislavski. Mas o nome transcende na hora em que refletimos sobre o potencial transformador do teatro e quando refletimos sobre a nossa permanência nesta prática artística em condições tão adversas. Realmente é preciso acreditar muito para trabalhar num mercado com poucas oportunidades para tanta gente que está em exercício.

Completaremos 8 anos de atividade em janeiro de 2015. Nem sempre estamos em cartaz, mas isto não significa que estamos parados. Há os momentos em que precisamos dedicar mais tempo à produção, ao planejamento, aos ensaios.

Uma novidade é que recentemente coproduzimos dois curtas-metragens com a Deroul Filmes: Outonos na Alma e Epílogo. A diretora Simone Bastos nos propôs este mergulho no audiovisual, tendo como referência as práticas da Nouvelle Vague. Com a Simone fiz o curta X, que foi uma experiência bem interessante.

Com Epílogo participamos este ano do Short Film Corner, do Festival de Cannes. É um espaço onde os curtas-metragens podem ser exibidos em pequenas salas que comportam de 3 a 9 pessoas, todas ligadas à produção cinematográfica. É a oportunidade para divulgar o filme e trabalhar para viabilizar novos projetos. Eu atuei em Epílogo e fui 1º assistente de direção nos dois curtas, Geraldo Machado atuou em Outonos na Alma e trabalhou na produção dos dois, Viviane Bernard atuou em Outonos na Alma e assina a direção de arte de ambos os filmes. Foi uma grande experiência para a Cia. Fé Cênica.

Alzira Re[vista] – Como aconteceu o encontro com os atores Viviane Bernard e Geraldo Machado que interpretam o divertido casal de Fogo cruel?

A atriz Viviane Bernard
A atriz Viviane Bernard

Claudio Marinho – Meu encontro com Geraldo já contei ao responder a primeira pergunta.

Conheci a Viviane Bernard dividindo a cena em Agorafobia. Ela era a atriz que tinha em mente para fazer Fogo Cruel em Lua de Mel. Mas acabamos convidando outra pessoa naquele momento. Demorou um pouco para entrar no grupo, mas chegou para ficar e hoje é pessoa fundamental no nosso trabalho. A Viviane entrou para fazer As Ruminantes, depois fez Perfídia Quase Perfeita e A Fábula das Águas. Além de atriz,  é produtora e figurinista.

Alzira Re[vista] – Preciso fazer esta pergunta a você. Quais os principais desafios de fazer teatro na cidade de São Paulo, em particular?

Claudio Marinho – São Paulo tem a característica de ter muitas e diferentes produções, em diversos espaços com características também diversas, público segmentado de acordo com o gosto, interesse e potencial de compra. Então me parece que um dos primeiros desafios para quem produz é encontrar o canal certo para direcionar seu trabalho no meio de tanta diversidade. A cidade chega a ter mais de duzentas peças em cartaz simultaneamente. Isto é ótimo, mas também cria dificuldades para encontrar os parceiros certos, para conseguir pauta nos teatros e depois para divulgar em espaços restritos.

Acho que falta atenção ao novo e desconhecido, que é quase invisível diante dos profissionais que já conquistaram algum espaço no mercado. São Paulo tem os grupos que se apresentam em porões e, ao mesmo tempo, produções milionárias em cartaz. Vejo com bons olhos esta diversidade de programação, mas todo o esquema de divulgação e vendas é muito difícil para a maioria dos grupos de teatro. 

Hoje a Cia. Fé Cênica tem parceiros que nos ajudam a viabilizar os projetos. Ainda trabalhamos enfrentando muitas dificuldades, assim como a maioria dos grupos e produtoras. Mas devo admitir que já foi mais difícil quando não tínhamos nem espaço para ensaiar. Para superar esta fase, só mesmo a continuidade do trabalho.

Alzira Re[vista] – É possível pensarmos em um teatro paraense? O que acontece hoje na cena teatral paraense? Existe esta cena realmente?

Claudio Marinho – Claro que existe! É uma cena resistente, que enfrenta dificuldades pela falta de verba para produzir, pela falta de espaço para apresentar as peças, pela falta de apoio empresarial e do poder público. Não existe uma política no governo que garanta condições de trabalho. Mas há artistas resistentes e teimosos e graças a esta teimosia é possível afirmar que há uma cena teatral paraense.

O Grupo Gruta de Teatro tem 45 anos de atividades, o Grupo Experiência também tem mais de 40 anos de estrada, O In Bust Teatro com Bonecos realiza pesquisa contínua sobre teatro de animação, os Palhaços Trovadores desenvolvem a linguagem do clown há 16 anos, o Grupo Cuíra sustenta um espaço cênico alternativo que agrega grande parte da produção teatral de Belém. Citei só alguns grupos. Os governos passam, os partidos políticos se alternam no poder e os grupos permanecem.

Há outros grupos formados por jovens que estudaram na Universidade Federal do Pará, que oferece cursos de formação técnica e de graduação na área.

Não tenho muitas informações sobre a produção teatral no interior do Estado. Mas sei que assim como acontece na capital, há vários grupos que se esforçam para manter seus trabalhos no interior também, enfrentando muitas limitações por falta de investimentos.

Há, sim, uma cena resistente e teimosa. O que falta é investimento do governo e das empresas, falta reconhecer o que já existe.

Nos últimos dois anos a Cia. Fé Cênica foi três vezes a Belém e fomos muito bem recebidos pelo público e bem divulgados nos meios de comunicação.  Fizemos isto sem patrocínio, mas fizemos porque também somos teimosos.

Alzira Re[vista] – Sonhar é sempre uma necessidade, uma urgência. Quais são os seus sonhos e de seu grupo em perspectiva de criação cênica?

Claudio Marinho – Conseguir manter a atividade de maneira mais contínua porque só o exercício constante aprimora o nosso trabalho. Estamos num exercício de dramaturgia dentro do grupo encenando Lendas, para que te quero! e ao mesmo tempo “namoramos” alguns autores  buscando caminhos novos. Então o sonho é continuar caminhando.  

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+ Rudinei Borges – Poeta, dramaturgo e ficcionista. Autor dos livros “Chão de terra batida” (poesia), “Dentro é lugar longe” (dramaturgia), “Teatro no ônibus” (pesquisa) e “Memorial dos meninos” (poesia). Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Formou-se em Filosofia. Ator e diretor do Núcleo Macabéa. Editor da Alzira Re(vista). Nasceu em Itaituba, Pará.

+ Christiane Forcinito é fotógrafa da Alzira Re[vista]. Realizou uma série de ensaios fotográficos sobre o cotidiano do centro antigo de São Paulo, especializando-se em fotografia urbana. Nos últimos anos se dedica à fotografia de criações teatrais, fotografando várias montagens cênicas – em particular, o teatro de grupo.