Travessia fragmentada. Primeiras notas sobre Post Scriptum de Samir Yazbek

| Texto por Rudinei Borges | 

Alguém baixou com suavidade minhas pálpebras, me levando, desprevenido, a consentir num sono ligeiro, eu que não sabia que o amor requer vigília.

(Raduan Nassar)

Guardo da leitura de Post Scriptum, nova peça de teatro de Samir Yazbek, um rosto afável de mãe que percorre, em passos um tanto vagarosos, o rapto imaginativo, ou onírico, do filho caçula. O silêncio da mãe diante do primogênito que anseia partir para o Oriente Médio e reacender alguma (in)justiça desavisada, ingênua até. O silêncio da mãe diante do pai que esteve quase sempre, ao longe, em andanças por um norte do Brasil pouco conhecido. Guardo, do interior dos cômodos duma casa, fagulhas duma família de origem libanesa e a cicatriz aberta do conflito entre árabes e judeus. Não a cicatriz restrita a aspectos ideológicos, mas a força atroz das ideologias sobre as vidas.

Poderia guardar de Post Scriptum vazões que surgem e ressurgem da temática sempre urgente que é o entendimento das agitações que cercam, de modo extremamente violento, a vida de Israel, da Palestina e de todo o Oriente Médio. Todavia, guardo – como engano – qualquer possibilidade de restringir o novo escrito de Yazbek a um possível assunto comum aos livros de geografia e política internacional.

O que se enxerga ali, em claridade, é o mergulho denso na capacidade humana de lembrar e imaginar, aliviar-se num estado de sonho, em que o conceito de realidade aparece posto em cheque. Decerto, algo que transita pela ideia de inconsciente de Freud. Um adentrar biográfico e ficcional que encontramos em obras cinematográficas de grande fôlego como Fanny e Alexander (1982), de Ingmar Bergman, o Espelho (1975), de Andrei Tarkovsky, e Oito e meio (1963) de Federico Fellini. Pelo menos nos dois últimos filmes, há uma estrutura descontínua e não cronológica, em que imaginações se confundem ou se misturam aos acontecimentos que, em verdade, ocorreram. Em Samir, os tempos alternam. Os espaços existem mediante o estado imaginativo do filho caçula e a sua quase inexistente relação com o pai.

A brevidade dos diálogos e a escrita enxuta ganham alento com a avidez das imagens construídas nas rubricas. Aliás, as rubricas de Post Scriptum põem a inventividade de Yzbek num patamar significativo que vai além do que o autor desenvolveu em Folhas do cedro, uma peça de 2010. Aqui, o autor põe a vista para além do voile e intenta habitar um universo de reencontro, ressentimento, revolta e autoconhecimento. A proposta de encenação posta nas rubricas está em serviço da ardorosa travessia do ser humano em busca de si mesmo.

O conflito entre povos é ao mesmo tempo o conflito daquela família derruída que procura, de algum modo, reerguer-se. O sustentáculo do texto de Yazbek é exatamente a figura um tanto misteriosa do pai e da mãe e do silêncio que a eles são atribuídos. A presença, na leitura, dos atores Helio Cicero e Bete Dorgam, nos papeis do pai e da mãe respectivamente, alçou ao texto uma capacidade inúmera de sugestões para as faces nebulosas do sentimento humano defronte da perda e do desamparo. A brevidade da fala de Dorgam e os sons de guitarra do filho caçula, como propostos no texto, evidenciam naquela mulher, inserida nas incertezas que rodeiam o seu núcleo familiar, uma alusão aterradora do desespero humano, algo que só vemos numa leitura atenta de Soren Kierkegaard. Talvez a leitura de Temor e tremor (1843), do teólogo dinamarquês, possa contribuir com as referências que Samir faz a Abraão durante toda a peça.

Post Scriptum estará, decerto, em cartaz em 2015 e logo, então, veremos toda a maturidade dramatúrgica de Yazbek em cena. Já na leitura vimos, em evidência, a trajetória criativa de um autor que se consolida como um dos mais inventivos dramaturgos do teatro brasileiro nos últimos quinze anos.

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+ Rudinei Borges – Poeta, dramaturgo e ficcionista. Autor dos livros “Chão de terra batida” (poesia), “Dentro é lugar longe” (dramaturgia), “Teatro no ônibus” (pesquisa) e “Memorial dos meninos” (poesia). Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Formou-se em Filosofia. Ator e diretor do Núcleo Macabéa. Editor da Alzira Re(vista). Nasceu em Itaituba, Pará.