Quando a última palavra é a penúltima

"A última palavra é a penúltima", criação cênica do Teatro da Vertigem. Foto: divulgação
“A última palavra é a penúltima”, criação cênica do Teatro da Vertigem. Foto: divulgação

| Texto por Rudinei Borges |

Este é um mundo que afirma possuir honra, embora seja bem evidente que não possui honra, ou, mais exatamente, nunca existiu nada parecido com honra nele, não é apenas assustador, não é apenas aterrorizante, é também risível.

(Peter Esterházy)

Toda ranhura ali se adverte, não em palavras, talvez em silêncios – menos dos corpos, mais dos rostos que atravessam alguma passagem subterrânea da rua Xavier de Toledo, estilhaço do centro antigo de São Paulo. O corpo célere em rugas céleres, músculos transpassados pela luz ínfima da cidade: uma mulher sem nome, um homem sem nome, um menino sem nome. Quem se importa se eles não têm nome? Têm rostos acocorados no breu, no anonimato das avenidas abarrotadas. Fazer parte da multidão é uma forma daninha de viver. Ou não. Arremessar-se para o corpo da procissão, seguir o fluxo, atender ou não atender celulares avaros, correr, ajoelhar-se: a vida é cheia de entraves ou, como se movimenta implícito no Teatro da Vertigem, a vida é tomada de esgotamentos e o homem vai e vem derruído, nem a cidade o acolhe.

A última palavra é a penúltima, criação cênica dirigida por Eliana Monteiro e Antônio de Araújo, com light designer de Guilherme Bonfanti, é uma espécie de ciclone que chega mas não retorna ao destino donde veio, insiste em atazanar a paz dos andejos – um poema que transita defronte dos olhos e arde em artilhamento.

Há algo aterrador na trilha sonora original de Erico Theobaldo, algo que leva, em muitos sentidos, para a Terra desolada de T. S. Eliot (1888-1965). O poema Thc Waste Land apareceu em Outubro de 1922, no primeiro número da revista The Criterion, dirigida pelo próprio Eliot. Para Gualter Cunha, nos anos que se seguiram à sua publicação foi com frequência considerado como um retrato da destruição física e mental da Europa saída da Grande Guerra, como expressão poética de uma geração  que a partir de 1914 tinha assistido ao desmoronamento e à ruína de uma civilização que antes disso se julgava à beira de um mundo de harmonia, de bem-estar e de progresso. Talvez esta obra do Teatro da Vertigem, revisitação de trabalho cênico apresentado em 2008, alicerce-se no anseio de desvelar, com os espectadores, o ventre derrocado das metrópoles, de como são dilacerados os homens em suas obrigações diárias, de como a existência assentou-se numa mecanização dizimadora, em que qualquer espontaneidade é reprimida; os sonhos estão enlatados nas prateleiras dos supermercados que funcionam 24h.  

A urgência e a pressa, em verdade, aparecem como ponto de orientação para a ação dos atores. Uma mulher – uma executiva, decerto –, atravessa a passagem subterrânea como se lutasse, instante a instante, com a escassez das horas. Aparenta-se atarefada. Fala ao telefone e come ao mesmo tempo. A mesma mulher, minutos depois, surge envolta duma veste feita de propagandas, típicas do centro da cidade, e grita – vencida – quase diante do Teatro Municipal. Numa construção apreciável, a atriz Miriam Rinaldi orquestra a cena movida por um silêncio acre, algo que fere os ouvidos. O retorno desta atriz ao grupo de Teatro da Vertigem põe a encenação num patamar de alcance valioso. A angústia expressa por Rinaldi, numa alusão ao que o filósofo Martin Heidegger (1889-1976) compreende por este conceito, é de força e avidez profundas, algo que recorda a interpretação de Cleyde Yáconis (1923-2013) em O caminho para Meca, espetáculo de 2009 com direção de Yara de Novaes e texto de Athol Fugard.

A última palavra 2Encontramos o mesmo envolvimento no excelente trabalho de Roberto Áudio e sua figura bíblica, contemporânea. Um homem de terno e gravata caminha com galhos de uma árvore seca, talvez uma alusão ao Gênesis, o livro da criação, e À espera de Godot, de Samuel Beckett (1906-1989). A contemplação centrada do ator e o estranhamento com que ele adentra a cidade nos põem diante de uma conciliação letífera e singela. A criação cênica ganha contornos significativos quando contemplamos a ação vigorosa de Lucienne Guedes, Mawusi Tulani, Emilene Gutierrez, Kathia Bissoli, Jessica Nascimento, Letícia Maia, Luís Mármora, Sérgio Siviero, Sérgio Pardal, Heitor Vallim, Daniel Farias e Nicolas Gonzales. O trabalho de composição realizado por estes atores impõem confluência à obra, o que implica num panorama agigantado das gentes que sobre/vivem nas grandes cidades.

Se ali – onde morre por ausência de água um golfinho –, a dor é preponderante, quase como descrença nos homens, ação que os espectadores acompanham de dentro de vitrines apertadas, uma voz esperançosa, em alento, surge no corpo desnudo de uma mulher marcada pela vivência dos dias. Em oposição a um Adão que foge com pedaços secos da árvore da vida, a mulher (Eva) retoma origens do Éden, o jardim, a terra sem males. A coluna ereta, o olhar certeiro e o caminhar desenhado da atriz Dalva Cardoso emprestam para A última palavra é a penúltima certa aproximação do sublime, algo que somente a poesia e o belo podem nos levar. A mulher vivenciada por Dalva devolve ao ser humano, das cinzas do esgotamento, dignidade e leveza. Neste momento, a travessia humana, nesta obra do Teatro da Vertigem, reaparece tomada de inocência e podemos vislumbrar as arras dum recomeço.

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+ O poeta, dramaturgo e ficcionista Rudinei Borges nasceu de uma família de migrantes campesinos de Itaituba, oeste do Pará, na Amazônia brasileira. É autor dos livros Chão de terra batida, de 2009, Dentro é lugar longe, de 2013, e Memorial dos meninos, de 2014. Aos vinte anos, migrou para São Paulo, onde se formou em Filosofia.  É mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).  Edita a Alzira re[vista].