Ledores no breu ou a estética da esperança: fagulhas

| Texto por Rudinei Borges | Foto por Rodrigo Moreira |

Esta é a razão por que não é possível o diálogo entre os que querem a pronúncia do mundo e os que não a querem; entre os que negam aos demais o direito de dizer a palavra e os que se acham negados deste direito. É preciso primeiro que, os que assim se encontram negados no direito primordial de dizer a palavra, reconquistem esse direito, proibindo que este assalto desumanizante continue.

Se é dizendo a palavra com que, “pronunciando” o mundo, os homens o transformam, o diálogo se impõe como caminho pelo qual os homens ganham significação enquanto homens.

(Pedagogia do Oprimido. Paulo Freire)

Guardo de Ledores no breu uma fagulha, quase luz, em lamparina, atrevida: uma faísca. O sussurro da palavra esmiuçada na boca de mulheres e homens que nada sabem da leitura e da escrita, uma cantiga que vem duma sala de aula em chão esburacado, lousa pequena, um tamborete. Lá, ao longe, uma mulher tenta garatujar as vogais na terra seca dos quintais; com sapiência, a mulher compreende que o mundo é instaurado na decifração dos códigos, a procura pela junção dos verbetes, dos sons e dos garranchos: Nina. O lápis: uma tabica, um graveto. O caderno: a aridez do barro vermelho das labutas. Em Ledores no breu enxerga-se, logo em princípio, que o analfabetismo tem relação com os pobres, os miseráveis, os injustiçados do mundo. Estranho isto? Não. Nenhum estranhamento há quando as opressões vociferam, persistem, corroem os homens e as mulheres às margens. Mas de antemão, em escritos tecidos na pretura do carvão, alguma esperança se acende quando os pobres aprendem o que há guardado nos alfarrábios. Que têm direitos, sobretudo.

Ali, na pequeneza da sala de teatro, armado com as mãos soltas, a face entregue, os olhos vívidos de cintilar, um ator arregimenta excertos, em cena. Numa manifestação gestual de envolvimento, procura por dizer ao outro, em personagens tantos, o sentido mais exato da alfabetização: aprender a escrever a vida, como autor e como testemunha de sua história, isto é, biografar-se, existenciar-se, historicizar-se. É com este dizer, tomado de afeto, no sentido mais verdadeiro deste termo, que o ator Dinho Lima Flor nos conduz, numa atuação primorosa, aos rodeios mais distantes de um Brasil de dentro. Mediado pela direção sensível de Rodrigo Mercadante, Lima Flor assume o aprendizado de uma vida dedicada ao teatro: mais de uma década no grupo Ventoforte e outros tantos anos na Companhia do Tijolo, em São Paulo. 

Numa travessia que vai do espaço aberto à sala de teatro, o solo abre passagens, veredas, para as falas mais peculiares, costurando uma espécie de “dizeres”, fragmentos de vidas que se encontram num ponto em comum: são desprovidas da escrita e da leitura. Esta ausência opera como um fosso, aquilo que as separa e as põe marginalizadas na sociedade. A dramaturgia é constituída destes percalços que vêm dos textos de Paulo Feire, Lêdo Ivo, Zé da Luz, Patativa do Assaré e Luiz Fernando Veríssimo. Costurada as partes, surge, defronte dos espectadores, um ator a narrar vozes tantas, tornando atual aquilo que, por razões diversas, parece questão antiga, como a reforma agrária.

O que mais nos causa ranhura na profusão de falas é a narrativa penosa de um homem que mata a mulher por desconhecer a leitura. Imagina que a carta da esposa endereçada a outro homem é prova cabal de traição. O que acontecerá a ele, em seu manifesto, defronte de um delegado, nos coloca em anseios de saber o que diz a carta. A certa altura, o ator abre rolos grandes de papéis que se espalham pela sala de apresentação. Surge, num instante de entristecimento, em off, a voz da mulher, o dizer de sua carta, que só reafirma a sua fidelidade. Extasiado com o erro, o homem vai à escola e ali aprende a palavra que instaura um novo mundo para ele: Nina, o nome da mulher morta.

Ledores no breuNina, alcunha ou apelido, toma o lugar de liga do itinerário ali desenhado. Nas repetições deste nome, que tem o alento de um mantra, parece-nos que o ator nos confronta e acaroa também a desvalia e o poder da ignorância a que são submetidos os miseráveis. Não são vitimizados, todavia estão meio a uma confluência de desigualdades de oportunidades que os colocam nas beiradas de um sistema movido pelas posses: poder e dinheiro. É preciso, então, algum estalo de automotivação para que eles lutem pelo aprendizado da leitura e da escrita. Porém, Leitores no Breu desvela que não é a falta de motivação que põe à parte os não alfabetizados, os pobres. De outro modo, logo percebemos que o analfabetismo não é condição inerente aos seres: antes de ser analfabeto se é ser humano.

Defronte destas intempéries, Lima Flor injeta olhares de candura aos personagens que interpreta. Nada foge, tomando tudo lugar de relevância: cada palavra e cada um de seus atos gestuais, desde o franzir da testa à dança das mãos. Aliás, as mãos têm ação profícua, pois compõem um misturar da pele ao breu do carvão. Numa alusão bíblica, parece-nos que a toda ação do ator com mãos e carvões faz-se uma referência à criação do homem do barro do Éden, o jardim. Algo ali volta aos primórdios, desde a pintura rupestre à invenção da escrita.

Ledores no Breu é um espetáculo arcaico, no sentido de volta ao começo, volta para a arché (ἀρχή: origem). O que há no começo, senão encontro das gentes tantas. Ledores é penetrado de anima, sopro ritualístico, dança que a palavra instaura na vida dos homens: o ir e vir de Lima Flor tem nuanças de ciranda, feitura do instruir-se com as letras e o som dos vocábulos. Vestido todo o tempo de branco, o ator se assemelha a um brincante de roda de samba, talvez não intencionalmente, mas isto redimensiona o visual do solo para a criação dum bailado, um folguedo, dos que abandonam o analfabetismo e se encontram livres deste modo particular de opressão.

Em Ledores no Breu retornamos à indagação de Jerzy Grotowski (1933-1999) sobre o que é essencial ao teatro, a arché. Para o pesquisador polonês, eliminando gradualmente tudo que se mostra supérfluo, percebemos que o teatro pode existir sem maquiagem, sem figurinos especiais e sem cenografia, sem uma área separada para representação (palco), sem iluminação, sem efeitos de som etc. Mas ele não pode existir sem a relação da percepção direta, da comunhão ao vivo entre espectador e ator. No solo de Lima Flor ocorre esta comunicação assombrosa, algo que Martin Buber (1878-1965) suspeitaria como encontro. De novo, pensando em Grotowski numa entrevista ao escritor Naim Kattan (1928), vemos que “a essência do teatro é o encontro. O homem que faz um ato de autorrevelação é, digamos assim, aquele que estabelece contato com ele mesmo. Isto é, uma confrontação extrema, sincera, disciplinada, exata e total – não simplesmente uma confrontação com seus pensamentos, mas a que envolve todo o seu ser, desde seus instintos e seu inconsciente até seu estado mais lúcido.” Em Ledores no Breu nota-se intrinsecamente o encontro do ator consigo mesmo e, em reverso, o encontro com os personagens a quem empresta vida. O que ali acontece é o diálogo promissor do ator (Eu) com um Tu próximo: mulheres e homens desprovidos de alfabetização, mas não de dignidade.  Há um ethos compromissado em desvelar este sentido de dignidade das histórias ali encenadas. Destarte, o que ocorre neste encontro é, sobretudo, ação mobilizada pelo anseio de pôr-se face a face na presença do outro, em reciprocidade, apresentando-lhe respostas. Com isto, o espetáculo assume um caráter humanista para além da indignação rasa e, ao mesmo tempo, inaugura uma estética da esperança.

Fé e festa estão irmanadas na interpretação de Lima Flor. Talvez por isto o ator dance sozinho, em cena, um bolero, uma cantiga de amor – depois dança acompanhado. As gentes postas na interpretação de Ledores, mesmo acocoradas em misérias atrozes, são tomadas duma espera não alienante, confiantes que são na vida. Assim, o solo configura espécie sublime de tratado da esperança, do sentimento do mundo que alimenta a boca faminta dos homens. Quando leem e quando escrevem abandonam, decerto, a voragem espezinhadora do breu, vem a claridão: fagulhas.

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Livro 20 - CópiaO poeta, dramaturgo e ficcionista Rudinei Borges é autor dos livros Chão de terra batida, Dentro é lugar longe e Memorial dos meninos. Mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), formou-se em Filosofia, coordena o Núcleo Macabéa e escreve sobre teatro e literatura na Alzira re[vista]. Atua como dramaturgo-pedagogo no Projeto Espetáculos das Fábricas de Cultura do Governo do Estado de São Paulo.