Carta para Fernando Brant

| Texto por Rudinei Borges |

Procissão deserta, deserta 
Homens e mulheres na noite 
Homens e mulheres na noite desse meu país 
Nessa praça não me esqueço

(Fernando Brant – Beco do Mota )

Triste esta madrugada em que, sentado na sala de um apartamento destes edifícios velhos do centro antigo de São Paulo, leio em algum jornal a notícia de tua morte. Eu, anúncio de poeta que em ti via marés que nunca brotaram nas colinas de Minas, pensei que nunca morrerias. Que eu, assim mesmo, numa noite qualquer, partiria às 20h20 com a certeza aliviada que tuas composições ainda abraçariam as esquinas dos clubes e das cidades perdidas nos mapas por longos tempos. Mas antes, antes, bem antes, me deixas à mingua na secura do mundo chato de agora, sem Travessia.

Me lembro menino na casa de uma tia gravando músicas numa fita k-7, copiando à mão num caderno os teus poemas. Daqueles refrãos que não me esqueço, tomados dum desespero. Às vezes, queria dizer aquilo bem alto, de cima do telhado de casa: Solto a voz nas estradas, já não quero parar. Meu caminho é de pedra, como posso sonhar? E as minhas estradas, mesmo as desertas, eram cheias de vozes que não podiam parar. Eram travadas em veredas e azinhagas, eram estirões soltos no mundo. Havia fé, confesso, alguma fé na vida e na completude, de dentro, que movia a tua escrita em canção. E agora, mais velho em tudo, rezo, às vezes; forte sou, sei, mas hoje eu tenho que chorar.

Choro, em parte, como chora a pedra, árida em si, o meu choro de asfalto. E me devolvo ao tempo em que a (minha) alegria de estudante pobre era depois da escola esperar que viesse no rádio uma letra tua na voz do Milton. Te descobri ouvindo. Só depois em leitura. Mais tarde em reza. Agora em vento.

Fernando Brant 2Assim é que digo, com um gosto amargo na boca: Você me quer forte e eu não sou forte mais. Sou o fim da raça, o velho que se foi. Chamo pela lua de prata pra me salvar. Rezo pelos deuses da mata pra me matar.  De começo em começo o mundo vai – açoitado. Promessas de sol já não queimam meu coração. Estou aqui. Tantas outras vezes estarei aqui com as folhas amarrotadas do meu caderno, tentando a poesia, tentando sempre a poesia.

Há noites daninhas lá fora. Só tempo obscuro é que resta. Eu sou um homem comum. Eu sou um homem do sol. Eu sou um african man. Um south american man. Mas quem sabe, Fernando, quem sabe, meu caro, tenhamos muitas passagens ainda. Em andarias tantas, tantas. Viramundos que somos. E são tantos os mundos a virar. Quem sabe a terra segue o seu destino. Bola de menino pra sempre azul.

Tenho em mim o que fica: a cantiga do anoitecer, quase hora de dormir. A cantiga que me levou aos poetas. Que era possível a poesia naquele compositor nascido em Caldas, sul de Minas Gerais, em 1946. Alguma força se movia (se move) em mim, força que vem de tuas cantigas, Brant. Quem sabe o homem mata o lobo homem  e olha o olhar do homem que é seu igual. Quem sabe.

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Livro 20 - Cópia

O poeta, dramaturgo e ficcionista Rudinei Borges é autor dos livros Chão de terra batidaDentro é lugar longe Memorial dos meninos. Mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), formou-se em Filosofia, coordena o Núcleo Macabéa e escreve sobre teatro e literatura na Alzira re[vista].