O transe da terra e a poética da Cia. Bará

| Texto por Rudinei Borges |

Minha alma deseja a revolução e minhas mãos trabalham para a revolução. Porém o que é revolução? Uma revolução é a mudança total das leis naturais e sociais. Uma revolução só pode se realizar quando a morte vence a vida, porém ao mesmo tempo a morte é o nada e o nada é contra-revolucionário.

(Glauber Rocha)

Não escrevia sobre teatro desde a estreia de Ledores no breu (2015), solo primoroso da Cia. do Tijolo com atuação de Dinho Lima Flor, mas ambicionava a composição de um ensaio a respeito de Pra dar um fim no juízo de Deus (2015), a criação cênico-ritualística do Teatro Oficina a partir de gravações radiofônicas de Antonin Artaud (1896-1948). Um destes ensaios que só se escreve uma vez na vida, como merece a peça, porém as palavras me escaparam. Ficou somente o silêncio defronte da obra de José Celso Martinez. Agora, em tempos, numa terça-feira ventosa, destas terças-feiras que nascem embrenhadas no vão dos edifícios da cidade de São Paulo, rascunho estas impressões que surgem do que vi hoje em Terra em transe, espetáculo da Cia. Bará, grupo fundado em 2007, com excelente direção e dramaturgia de Diego Gonzalez, artista que vem se destacando no cenário teatral paulistano por sua persistência criativa.

Significa corpo na língua iorubá, como afirma o grupo, a palavra Bará. Corpo – este mistério. Sobretudo, corpus do homem e da mulher; corpo da terra, pó de onde vem ao mundo o anseio raivoso por travessias e voracidade de poder. Corpus Christi, feito via-crúcis de andrajo em El Dourado, o país fictício do filme do cineasta Glauber Rocha (1939-1981) que estreou em 1967. Corpo imolado do povo. Assim, o que se olha nesta obra cênica, movida pela cinematografia glauberiana, é o encontro-desencontro entre o corpus do poder político e o corpus do (des)poder popular. No entremeio, em primeiro plano, corpus ou voz arguciosa de um poeta que rosna a completude de sua incerteza: pôr-se lá ou cá, deste ou daquele lado: dos esfarrapados ou dos encastelados? Sempre numa ressalva que se desequilibra encima de um muro extenso, longínquo. Talvez a questão, a princípio, esteja colocada de um modo claro: de que lado se posicionam os artistas, os intelectuais? Em Glauber, há apenas dois lados: cara e coroa.

Se em Ópera dos Vivos – Estudo Teatral em 4 Atos, da Cia. do Latão (2010) com dramaturgia de Sérgio de Carvalho, Terra em transe aparece como releitura fílmica assumidamente crítica, na Cia. Bará a recriação é ato que surge corporificado nos atores que renovam a problemática política do longa-metragem de Glauber com a inserção de questões ético-morais que assolam a década de 2010 no Brasil, como a corrupção, o sexismo, o fundamentalismo religioso e a homofobia. Já Ópera dos Vivos, por sua vez, empreendia análise da produção cultural dos anos 1960 até hoje, por meio de quatro episódios que abordavam as linguagens do teatro, do cinema, da música e da televisão: Sociedade mortuária, Tempo morto, Privilégios dos mortos e Morrer de pé.

Se a obra da Cia. Bará é uma reverência a Glauber é, ao mesmo tempo, em maior dose, uma homenagem ao tropicalismo e irreverência do teatro de José Celso Martinez. As cantigas e a nudez do Teatro Oficina ressurgem costurando cenas e envolvendo o público no itinerário trágico que propõe a peça. Neste sentido, ao contrário da Cia. do Latão, o transe da terra na Cia. Bará não é uma procura que visa desconstruir o tropicalismo de Glauber, mas uma atualização encantatória, não ingênua, por assim dizer, do tropicalismo e da obra do cineasta baiano.

Ali reina, portanto, a tentativa de reinvenção do ritual dionisíaco, não sisudo, de celebração da vida, em festa – um tanto esperançoso. Ao mesmo tempo que a cantoria se estende a carnificina acocora na terra seca. Vinho e sangue se misturam. Todavia é explícita, como em Glauber, a denúncia: a carnificina não se faz sozinha. Os rostos dos algozes estão estampados: políticos, militares e militantes corruptos. Se há saída, ela ainda resta guardada na mão calejada dos trabalhadores – eis a questão. O vermelho ensimesmado dos tecidos que compõem o figurino dos atores é reza de chamamento para a Pomba-gira e o Zé Pelintra, entidades espirituais de origem afro-brasileira. No entanto, o mesmo vermelho que invoca a verve, invoca também a fúria, em protesto: é sangue de morte matada o que escorre em El Dourado. O movimento que intersecta festa e denúncia é o ponto alto da Terra em transe posta em cena pela Cia. Bará. Um movimento assombroso de representação.

A peça está centrada na força de prenúncio e de eloquência do fluxo da palavra poética que é, em cena, espécie árdua de derramamento, algo que nos leva para Jaguar Cibernético (2011), a trilogia canibal do amazonense Francisco Carlos. Configura também espécie de poesia-protesto, algo que se aproxima de Orfeu Mestiço (2012), espetáculo encenado pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, com dramaturgia de Claudia Shapira.

A obra cênica da Cia. Bará é perpassada por cortes abruptos nos refletores que compõem a proposta de iluminação, às vezes intercalada com imagens projetadas que dialogam com as cenas. O minimalismo da luz, assinado por Ana Lucia Ventura, é ponto significativo pois imprime dinamismo à peça.

A sonoplastia, assinada por Gonzalez com criação sonora de Júlio Battesti, e a música instrumental executada ao vivo, com participação incendiária de Felipe Tchaça, aguçam a perspectiva ritualística da montagem, interferindo de modo contagiante na ação física dos sete atores, conferindo à encenação aspecto festivo que intercala alusões de rituais do candomblé a escolas de samba – sempre numa reverência ao filme de Glauber.

É notório o excelente envolvimento e interpretação de atores como Irun Gandolfo que assume, entre outros papéis, um personagem abissal, o senador Don Porfírio Diaz, ditador fascista defensor da “família” e da Igreja – interpretado no cinema por Paulo Autran. Irun versatiliza sua participação na peça com dança, canto e execução de instrumentos musicais. Desde O homem do princípio ao fim (2012) e O homem (2014), duas peças anteriores do grupo, é expressiva a escalada criativa do excelente trabalho de Irun, um dos atores mais corajosos de sua geração.

O poeta Paulo Martins, detentor de um fluxo poético e psicodélico alucinante, é interpretado pelo ator Ruan Azevedo, uma das melhores surpresas da peça por sua presença e vivacidade capaz de verter em palavra a ambiguidade da personagem. Em muitos sentidos, Ruan assume, em cena, a imprecisão humana e do poeta que assiste às manobras de políticos como Dom Felipe Vieira, governador da Província de Alecrim, e Dom Porfírio Diaz. Diante da lei erigida pelos políticos poderosos de El dourado, Paulo Martins vê-se obrigado a arriscar suas fichas na revolução e, por isso, detona: “Precisamos resistir, resistir!” Ruan avoca este trajeto trágico, impulsionado pelas particularidades da encenação de Gonzalez, com semelhanças de herói ameríndio, pondo-se quase sempre com o rosto vermelho como se estivesse pronto para a guerreia.

Do elenco é notório o trabalho de Alcides Peixe quando assume o papel de pastor neopentecostal fundamentalista. O ator imprime graça e irreverência à encenação. Peixe encara um dos momentos mais conflitantes do espetáculo. Também é consistente o trabalho de Flávio KaGe, sobretudo quando representa camponeses e operários, avocando para si o lugar dos trabalhadores e oprimidos na saga de El Dourado.

Um dos motes mais perspicazes da peça dirigida por Gonzalez é o trabalho da atriz Sophia Aloha, a única mulher em cena. Sara, a professora e ativista interpretada por Sophia, aparece como contraponto no mundo político governado por homens. É impressionante a irreverência e versatilidade da atriz no sentido de estampar na peça o espírito de trupe que enseja contar, na crueza da carne, os percalços e as conquistas humanas mediante a busca pelo poder. Em Sophia, a Cia. Bará encontra a sua mais aturada personificação.

A Terra em transe da Cia. Bará é perpassada pela presença arrebatadora de Glauber Rocha, mas não é exagero afirmar que também Glauber é perpassado pelo instigante itinerário criativo deste grupo de teatro da cidade de São Paulo. A peça, como afirma Gonzalez, veio em boa hora, pois dialoga e confronta as mazelas mais atrozes da saga Brasil (El Dourado). A força crítica e festiva do grupo é, em muitos sentidos, impactante. Um teatro de resistência que abre as portas para a cidade e seu matadouro. Atrevo-me, por fim, em afirmar que mesmo o que parece “desacerto” em Terra em transe da Cia. Bará é, na verdade, caminho para o encantatório. Fico com o encantatório.

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Livro 20 - Cópia

O poeta, dramaturgo e ficcionista Rudinei Borges é autor dos livros Chão de terra batidaDentro é lugar longe Memorial dos meninos. Mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), formou-se em Filosofia, coordena o Núcleo Macabéa e escreve sobre teatro e literatura na Alzira re[vista].