Dramaturgia da alteridade. Entre(vista) com Tadeu Renato

 | Por Rudinei Borges |

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.

(Gabriel García Márquez)

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Poeta e dramaturgo, entre outros tantos engenhos, o escritor Tadeu Renato imprime em seus escritos uma literatura de persistência aguerrida. Entre São Paulo e Mococa, na obra de Tadeu tempo e espaço confluem numa polifonia aturada movida pela palavra poética e a aspiração (fora de moda – como ele confessa) de contar histórias. Com a estreia de Oju Orum, a sua nova peça de teatro encenada pelo Coletivo Quizumba, em São Paulo, o autor conta para a Alzira Re(vista) dos rastros de seu trajeto criativo.

Tadeu Renato 1
O poeta e dramaturgo Tadeu Renato. Foto: Acervo do autor

Inseridas no turbilhão inventivo do teatro de grupo da cidade de São Paulo, as peças de Tadeu Renato são encenadas por coletivos independentes.  Ele integra uma geração inquieta de novos dramaturgos que inicia a sua produção a partir dos anos 2010, vinda de grupos e escolas de teatro. Formado em Filosofia, o escritor compõe uma dramaturgia com aspectos peculiares em que alquimia, metafísica e realismo fantástico convergem.

Entre outras possíveis perspectivas, é notória na criação de Tadeu Renato certa dramaturgia da alteridade, anseio profícuo de entender e colocar-se no lugar do outro, sobretudo no abrir caminhos de diálogo com e para com a humanidade alheia – num dialogismo evocado por Paulo Freire. Revestida de dosagem poética considerável, esta dramaturgia adentra as mazelas humanas e põe em evidência as vozes excluídas na história brasileira e mundial. Assim, a obra de Tadeu coaduna com a dramaturgia de outros autores da mesma geração como Jé Oliveira ({Entre}) e Maria Shu (relógios de areia).

A seguir, veremos a completude e o universo multifacetado da produção dramatúrgica de Tadeu Renato numa entrevista marcada pelo o que é mais característico de sua criação, alteridade e poesia.

Alzira Re[vista] – Tadeu, como aconteceu o processo de criação e montagem de sua nova peça de teatro, Oju Orum, encenada pelo Coletivo Quizumba?

Tadeu Renato – Há dois anos começamos uma pesquisa sobre a condição da mulher, os discursos normativos e de poder que estão atravessados nessa questão. Desde o começo apontávamos as investigações a um teatro para jovens, tendo como estímulo a figura da escrava Anastácia, a mulher calada.

Oju Orum, peça com dramaturgia de Tadeu Renato
Os atores da peça Oju Orum. Foto: Acervo do Coletivo Quizumba

No segundo semestre de 2014, fomos contemplados com a 25° Edição do Programa de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo, o que nos possibilitou expandir os experimentos e estudos com o projeto Santas de Casa Também Fazem Milagres. O Coletivo Quizumba convidou a encenadora Johana Albuquerque, que chegou somando muito. Ancoramos no bairro do Jabaquara, trocamos vivências com jovens e terceiira idade; realizamos duas assembleias de arte, que contaram com apresentações e rodas de conversa.

Todos esses encontros alimentaram o processo, jornada de arranjos e explosões que deram à luz ao espetáculo Oju Orum. Histórias de quatro mulheres jovens, em tempos e espaços distintos, mas que se encontram no que tem em comum. Quatro construções linguísticas que criam uma polifonia junto com música e corpo, características estéticas dos nossos trabalhos.

A primeira temporada do espetáculo acontece de 8 de Outubro a 8 de Novembro. De quinta-feira a sábado, às 20 horas. E domingo, às 19 horas. Na Casa Maria José de Carvalho, espaço da Companhia de Teatro Heliópolis, no Ipiranga, em São Paulo.

Alzira Re[vista]  Parece-me que a condição do negro e nossas matrizes africanas são questões latentes em seu trabalho no Coletivo Quizumba. Estou certo? Martin Luther King dizia que “a discriminação dos negros está presente em cada momento de suas vidas para recordar-lhes que a inferioridade é uma mentira só aceita como verdade pela sociedade que os domina”. Defronte de tantos debates francos e de outros pseudos debates, como você avalia a condição social do negro no Brasil?

Quando entrei para o Coletivo Quizumba estava entrando em terra estrangeira dentro do meu país. Não sabia como falar de um assunto tão necessário de ser dito. Foram minhas raízes familiares, meu interesse pela História e pela formação do povo brasileiro, e principalmente o anseio pelo discurso da alteridade, discursos outros que desestabilizem o estabilizado. Partir de uma estética afro-brasileira é uma afirmação e uma contestação. O coletivo, atualmente, desenvolve um projeto que incide sobre os discursos de pode sobre a mulher, questionando a partir da linguagem, e arriscando isso em um teatro que lide com o público jovem, tão carente de uma ousadia artística.

Estendi esta pesquisa para outros trabalhos. Os signos afro-brasileiros são ricos em interpretações, em arquétipos, em modos narrativos. Meus poemas e prosas sentem esta força, meu repertório de letrista/compositor, meu estar no mundo carece deste.

Sobre a condição social do negro no Brasil, está aí, escancarada. Representada poeticamente pelo Coletivo Negro, pelas Capulanas, por tantos artistas. Vivemos em um período que o discurso fascista, que apaga toda singularidade, está assustado e por isso reage com latidos e mordidas às conquistas dos negros, dos gays, das mulheres e de todo grupo que esteve inferiorizado desde sempre e que graças aos movimentos políticos da sociedade civil, tem arrebentado muros por mais espaço. Acredito que pensar em discursos coletivos não pode significar abrir mão da construção de individuações. Trata-se de uma via de mão dupla.

Tenho, cada vez mais, me interessado pela memória e seu funcionamento. Como esta narrativa conta a História social e cultural e o quanto as fronteiras entre ficção e “verdade” são iguais à nada. Não faltam materiais de estudo sobre como chegamos à sociedade atual. O que está em jogo é o poder pela voz.

Alzira Re[vista]  Numa travessia por seus escritos, tenho notado, em completude, a procura abrupta pelo poema. Procura esta que talvez venha de um diálogo silencioso com a tessitura dramatúrgica.  Na tentativa de decifrá-lo, tenho o anseio de adentrar os itinerários que o levam à poesia. Conte-me.

Tadeu Renato 2
Tadeu Renato. Foto: Acervo do autor

Nos momentos de assombramento me nascem poemas. Na percepção lúdica da construção da linguagem. Nas palavras que brotam umas das outras até que deem à luz a palavras novas, palavras feitas de gagueiras. O súbito vazio no vão entre sentidos e coisas é prenhe de espantos. Ressoa em mim o tempo de companheiro de novenas de minha vó: com a reza repetitiva apreendi a noção de ritmo, musicalidade. As imagens bíblicas me banham sempre, vazam mesmo nos meus instantes de puro ceticismo.

Mais tarde descobri a poesia enquanto verso. Desejei sempre a literatura, desejei escrever em reflexo ao que eu lia. Queria ser romancista. Contista. Compositor. Aos 18 anos verti um poema. Sonhei que era a reencarnação de Álvares de Azevedo, fluindo textos longos, eruditos, morrendo romanticamente aos 20 anos, embora questionasse a injustiça do haver-morte. Tanto quanto do devir-vida. Componho pornografias ao mesmo tempo em que estudo religiões. Metafísico a carne e acaricio espiritualidades.

A descoberta da poesia concreta, do haicai, da síntese dos sonhos. Encontrei na pequeneza formal minha ferramenta de trabalho. Um poeta que não se sabia se jogou no teatro por acaso, não existe lembranças de peças em minha infância. Por muito tempo quis ser ator (e alguém em mim ainda deseja), mas ouvir outra pessoa dizendo o que me passava pela cabeça fez com que eu virasse dramaturgo e me plantasse como tal.

O teatro é a poesia que sai do livro e se faz humana. Acho que é Lorca. E se não for, invento agora uma realidade onde essa frase pertença – sim – a ele.

Alzira Re[vista]  Onde é que começa este fio-raio de vida chamado Tadeu Renato? Nasceu onde, em que paragens? Filho de quem?

O Coletivo Quizumba. Foto: Acervo do grupo
O Coletivo Quizumba. Foto: Acervo do grupo

Nasci pela primeira vez no bairro do Ipiranga, em São Paulo. 1981. Filho de Alair, inventor de falas. Filho de Dinelsa, neologismo criado por meu vô. Ele-pai de Peixes, ela-mãe de Sagitário. Eu, canceriano até cansar. Minha mãe teve três filhos e colocou o nome de todos com T e R, no que acabei Tadeu Renato.

Nasci outra vez em Mococa, interior de São Paulo, estrada de terra e jabuticaba. Uma fazenda cravada no meio do bairro. Apenas seis anos vivi ali, mas um interiorano habita em mim desde então, ecoando. Sou bicho-do-mato urbano.

Meus pais escutavam muita música. Sertanejo de raiz. Samba. Rock. Bossa Nova. Roberto Carlos, Chico Buarque. Ao lado das rezas de minha vó, a música popular foi minha outra apresentação à poesia.

Em 34 anos mudei 12 vezes de casa, 6 vezes de óculos, 8 vezes de escola, imperdíveis vezes de emprego. Ser escritor sempre foi a meta. Afirmavam desde os 6 anos que eu morreria de fome, que seria necessário outra profissão. O que me fez mudar 27,5 vezes de profissões paralelas. A arte e a introspecção me levaram à Filosofia, que me levou a ser professor, que me levou ao êxtase e ao cansaço. Hoje sou escritor em tempo integral. Escrevo em pensamentos, na rua, andando, cagando, trepando, dormindo. E vivo e sobrevivo. Sem mas, nem mais.

Alzira Re[vista]  Penso a palavra itinerário como alumbramento de inquietações que movem o artista para a criação. Que caminhos, em especial, o levaram à composição dramatúrgica, a escrever textos para/com o teatro? 

O Coletivo Quizumba. Foto: Acervo do grupo
O Coletivo Quizumba. Foto: Acervo do grupo

A palavra-corpo. A imagem sem verbo. O princípio do verbo. Gosto de contar histórias, essa ação fora de moda. Qualquer dizer é um contar. Mas gosto de esgarçar o tempo, diluir o espaço, repossibilitar a palavra-voz.

Escrevo prosas e poemas e roteiros e canções. O teatro é liberdade da criação, quando feito com invenção. Interessa-me a comunicação, o que não significa que me interessa o fácil. A palavra-acontecimento na boca da atriz tem gosto de fogo. Na dramaturgia encontro minha poesia, minha filosofia, minha musicalidade. Na dramaturgia me perco.

Na infância nem pensei em teatro. Não tinha muito contato, não entendia aquilo como algo fora da diversão escolar. Descobri a dramaturgia na encarnação, ao querer ser ator. Por isso gosto de estar no espaço de ensaio, gosto do trabalho coletivo, de convergir anseios. A dramaturgia ex-cêntrica. Também gosto de trabalhar a solidão e escrever um texto na minha sala. Gosto de pensar a movimentação dos dizeres, de ouvir, de ver a concretude que o teatro possibilita. O teatro como espaço de experimentação de novas perspectivas.

Alzira Re[vista]  Para que os nossos leitores conheçam o seu trabalho em poesia e dramaturgia sugiro que você trace um panorama de sua criação até agora. O que você escreveu e foi encenado? O que você escreveu e está guardado em sete chaves? O que você não escreveu e anseia escrever?

Entre encenados e feridos, tem os que nem conto. Exercícios. Experimentos. Encenados, foram 10. Ainda existem outros que estão publicados, esperando uma ousadia. A gaveta amadurece Licantropia, O Fim da História, La Vie em Rose, Não há Vagas, Desenredo, Brechó, Sal da Terra, e outros frutos. Tenho pressa, não. Sou casado com o Coletivo Quizumba, mas tenho casos com outros grupos e artistas. Investigo um teatro apoiado na narrativa e no desdobramento desta; na criação de uma linguagem singular; no contato com mitos que me levam a beirar o que se convencionou chamar, na literatura, de realismo-fantástico.

Tenho esboços e faíscas de outras tantas peças. Um estudo estético sobre o perdão; outro sobre a memória… Falo sobre apenas para exemplificar, porque um texto, acredito, não se trata nunca sobre algo específico. Busco em meus escritos a lacuna, a elipse, os abismos. Não desejo um leitor ou um ator passivo. O Concretismo me deu o prazer do jogo.

Alzira Re[vista]  Que autores-mestres do teatro e da literatura e de outras artes são referenciais para o seu trabalho como poeta e dramaturgo?

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Os atores da peça Oju Orum. Foto: Acervo do Coletivo Quizumba

Sou afetado por tudo, faço alquimias e metamorfoses a cada contato. Desde uma frase ouvida na rua até a leitura de artigos científicos. Sou curioso, leio sobre física, sobre política, arte, religião. Leio gibis. Ouço muitas narrativas alheias. De modo que poderia colocar o mundo entre minhas referências. Poetas, dramaturgos, cineastas, artistas plásticos. Tudo conflui e me tira pra dançar.

Falo dos poetas mortos: Murilo Mendes, Jorge de Lima, Augusto de Campos, Paulo Leminski, Bashô, Paul Celan, René Char, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, Alice Ruiz, Orides Fontela e Hilda Hilst.

Brecht, Beckett, Ionesco, Koltés, Jarry, Harold Pinter, Heiner Muller, Büchner, Lagarce, Lorca, Tchekhov, Pirandelo. Embora os dramaturgos ainda em ação me influenciem muito mais, porém são tantostantos que não caberiam em uma lista.

Na prosa, os inventores. No fundo, gosto dos autores que quebram barreiras de gêneros literários, os que levam o texto à explosão. Os parteiros de idiomas novos: Haroldo de Campos, Guimarães Rosa, Kafka, Camus, Graciliano Ramos, Murilo Rubião, Breno Acyoli, Oswald de Andrade e Clarice Lispector.

E Deleuze, Nietzsche, Agostinho. E Octávio Paz. Escher, Portinari. E Chico, Caetano, Torquato Neto. Nomes nomes nomes: uma humanidade inteira por dizer.

Quanto aos vivos, viva!

Alzira Re[vista] – Novos e vivos projetos que pretendes realizar como criador quais são? Conte-nos, meu caro.

Embora minha baliza seja a poesia e a dramaturgia, tenho apreço por experimentar. Tenho rascunhos de romance, de histórias em quadrinhos, de desenhos animados, de performances, muitas músicas. Deixo acontecer e vou acontecendo. 2015 veio com três peças novas, um plano de romance, uma revista literária. Gosto de trabalhar em parceria. Sou convidado, gosto da pessoa, gosto da proposta, aceito. Só consigo estar no mundo criando.

Alzira Re[vista] – Tens esperanças em tua literatura? Tens esperanças que ela chegará aos leitores?

Ela já chega! A internet é uma ferramenta sensacional. Via redes sociais tenho respostas rápidas dos leitores. Atinjo, em número, pessoas que talvez nunca lessem poesia. Não sei o que espero de reverberação de minha arte nos outros. Talvez o mesmo que espero de reverberação dos outros em mim, mesmo em pequenos encontros: que me acrescentem vida.

Alzira Re[vista] – Onde estará Tadeu Renato daqui 20 anos?

Plantando uma horta suspensa. Varandeando afetos. Acompanhado de pessoas incríveis. Consumindo o olhar com a visão de Recife, Londres, Manaus. Criando: filhos, bichos, paixões, árvores e cinzas. Comendo, amando, dormindo e rezando enigmas.

Alzira Re[vista] – Uma pergunta pueril. É preciso fazê-la, todavia. Se fosse preciso salvar um livro, apenas um livro, qual seria?

Cem anos de solidão (do escritor colombiano Gabriel García Márquez). Entre outros.

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5 Dramaturgia – Tadeu Renato
Encenação – Johana Albuquerque
Co-Direção – Sofia Botelho
Atores – Camila Andrade, Jefferson Matias, Kenan Bernardes, Thais Dias e Valéria Rocha
Músicos – Bel Borges e Melvin Santhana
Direção e Concepção Musical – Jonathan Silva
Cenografia – Julio Dojcsar
Figurinos – Éder Lopes
Luz – Wagner Antonio
Brincante (adereços) – Cleydson Catarina
Preparadora Musical – Bel Borges
Treinamento em Capoeira Angola – Pedro Peu
Direção em Dança – Verônica Santos
Visagismo – Ariane Molina
Documentarista – Alicia Peres
Designer Gráfico – Murilo Thaveira
Assessoria de Imprensa – Nossa Sra. da Pauta
Produção Executiva – Ana Flávia Rodrigues e Patrícia Torres
Realização e Produção Geral – Coletivo Quizumba

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Livro 20 - Cópia

O poeta, dramaturgo e ficcionista Rudinei Borges é autor dos livros Chão de terra batidaDentro é lugar longe Memorial dos meninos. Mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), formou-se em Filosofia, coordena o Núcleo Macabéa e escreve sobre teatro e literatura na Alzira re[vista].