Dorberto Cavarvalho ou quem mira nos olhos de um anjo que tem a cabeça voltada pra trás

| Por Rudinei Borges |

Se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.

 (Gabriel García Márquez)

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Guardo de Dorberto Carvalho raios, em fractais, como rastros de uma voz que ecoa em resiliência e penso, às vezes, em silêncio, penso que antes do antes que muitos talvez pensassem em resistir, juntando-se ao coro, a voz de Dorberto e de sua geração estava lá dentro e fora das fábricas, nas trincheiras do teatro, na universidade e na rua em encontros e reuniões tantos para que albores nascessem nos cantos mais distantes de São Paulo e do Brasil. Albores  insisto na velhice da palavra , albores tomassem o céu e dessem forma ao dia. Decerto, nós que viemos depois, que olhamos a história da truculência com os olhos óculos de agora, numa fresta virtual, talvez não entendamos a embocadura e o timbre dessa voz que se coloca audível, certeira. E nunca nos diz em incertezas, nem em razões endurecidas, mas que se coloca sempre como voz de um irmão, um companheiro  destes companheiros que não abandonam a gente no primeiro relâmpago. Dorberto Carvalho é poeta, escritor e dramaturgo. Militante das artes, da cultura, da educação e dos direitos humanos. Mas Dorberto é amigo sobretudo. Destes amigos que se põem em combate para que tenhamos o direito, em um país em pedaços, de tocarmos a nossa arte junto ao nosso povo. Guardei esta entrevista por dias. Guardei esta entrevista num gaveta de ventos e, agora, ponho em redemoinho estes dizeres, esta conversa. Que sirva ao tempo presente.

Alzira Re[vista] –  O meu maior anseio era por um início singular de conversa, mas me fogem os começos. Comecemos pela partida: quando você viu (em si mesmo) o escritor que é?

Dorberto Carvalho Ainda muito jovem quando os desejos eram muitos e o dinheiro era pouco, escrever sempre foi uma diversão barata. A brincadeira de desmontar e recriar o mundo por meio da poesia era uma possibilidade para quem não se enquadrava no universo das respostas certas e caminhos bem traçados. Quase todos meus amigos escreviam poesias e compunham letras de músicas. Éramos os “otários” da marginalidade, enquanto outros também marginais roubavam toca-fitas, se metiam em assaltos e às vezes levavam um tiro por uma bobagem qualquer.

Alzira Re[vista] –  A miríade humana é de uma completude incontável. Não há espelho que nos abarque. Quem é Dorberto Carvalho, de onde veio?

Dorberto Carvalho Nasci em campinas em 1963 e aos oito anos de idade vim com minha família para São Paulo, cidade que deslumbrava minha mãe. Meu pai era cozinheiro industrial e barbeiro, minha mãe cortadora de cana e costureira. Meu pai morreu de cirrose ainda muito jovem e a vida da família foi ficando difícil. Minha mãe foi morar com outro homem levando minhas duas irmãs, então passei um bom tempo sobrevivendo nas ruas até encontrar o Partido Comunista do Brasil. O Partido que conheci tornou-se a minha família durante muitos anos e a militância me encaminhou para as melhores leituras, ensinou-me filosofia, deu-me um método de análise e forjou em mim uma postura ética.

Alzira Re[vista] –  Quais artistas e autores são importantes para a sua criação em teatro e literatura?

Doberto Carvalho Ainda jovem fui envolvido pelos livros da trilogia “Os subterrâneos da liberdade” de Jorge Amado. Na Universidade me apaixonei pelo estilo e engajamento dos poetas palestinos e hoje não consigo imaginar literatura sem Gabriel García Márquez. Por motivos óbvios me aproximei das concepções de Brecht, cultivei respeito pela obra de Vianinha e admiração por Arthur Miller e Tennessee Willians.Talvez eu devesse lembrar Luis Alberto de Abreu, mas existem outros tantos que por um motivo ou outro se misturam nas coisas que escrevo e depois desaparecem deixando suas influências, assim foi com o escritor albanês Ismail Kadaré e o egípcio Nagib Mahfouz.

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O escritor Gabriel García Márquez. Foto POR Sally Soames / Camera Press / Redux.

Alzira Re[vista] –  Em tempos sombrios, que leituras não podemos esquecer?

Doberto Carvalho Todos os tempos têm sombras e luzes. Paradoxalmente no período no nazismo deu-se a luz a robusta dramaturgia Brecht, bem como os maravilhosos textos de análise critica de Walter Benjamin. Durante a ditadura civil-militar no Brasil produziu-se uma das melhores safras na música popular brasileira e o teatro de resistência. Enfim, nada existe em definitivo. A vitória da intolerância e do autoritarismo que caracterizam os tempos sombrios está em alterar o curso da vida, tirando-nos a possibilidade de exercer o controle sobre nossas próprias vidas, então em tempos sombrios o melhor é resistirmos sendo nós mesmos, sem esquecer as leituras que nos dão prazer e nos fazem bem ao espírito.

Alzira Re[vista] –  Bumba meu FuscaCidade submersa e Makunaíma na rua são obras que marcam a sua produção dramatúrgica. Quais aspirações, em perspectiva, implicam a sua dramaturgia?

Dorberto Carvalho Quando escrevo estou em busca do desvio e da simplicidade. No desvio do tudo estabelecido mora a poesia e na simplicidade a aproximação com a essência das coisas. Para mim o desvio e a simplicidade são os elementos de criação que estabelecem a conexão com o mundo da invenção e talvez sejamos únicos pontos fixos da minha dramaturgia. Todo o resto são formas diferentes de se fazer a mesma coisa.

Alzira Re[vista] –  Que vozes e questões são acesas em Vertigem, romance de sua autoria?

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Dorberto Carvalho Quando comecei a escrever o Vertigem eu tinha uma pesquisa com apontamentos históricos da revolução húngara muito bem traçados até com alguma minúcia e o período da ditadura civil-militar no Brasil e no Chile bem gravado na memória pelos relatos de “testemunhas vivas”, e então, com um pé bem plantado na realidade julgava que seria muito simples lançar o outro na invenção, mas não, escrevê-lo foi quase um tormento. A Revolução húngara e as ditaduras latino-americanas são eventos históricos sempre acesos, são portas que não fecham e falar desses assuntos é como entrar num presente estendido do qual fazemos parte. Para dar conta desse universo me utilizei de uma polifonia na qual falam os húngaros da revolução de 1956, chilenos e brasileiros que lutaram contra as ditaduras militares, Gabriel García Márquez, falam companheiros militantes que se foram, russos condenados a trabalhos forçados na Sibéria, artistas de circo e de rua, negros do Alabama em luta por direitos civis, ciganos da Romênia e outras vozes dos meus sonhos e pesadelos.

Alzira Re[vista] –  Você tem assumido há vários anos um compromisso rigoroso de militância junto à Cooperativa Paulista de Teatro. Quais são, hoje, as urgências da comunidade artística na cidade de São Paulo?

Dorberto Carvalho A partir de 2012 ficou muito evidente o estrangulamento da produção artística na cidade de São Paulo em decorrência do surgimento de inúmeros coletivos artísticos e da consequente elevação da qualidade artística, então a Cooperativa direcionou o foco para conquista de leis e editais de produção e circulação e o resultado foi a elaboração do Prêmio Zé Renato de Teatro. Em 2015 ficou muito evidente o avanço das forças conservadoras que conspiram contra as liberdades individuais, artísticas e políticas, o que pede urgência para repensarmos nossa relação com a cidade. É preciso aproximar a educação e a cultura colocando os estudantes em contato direto com a produção cultural, relacionando-se com as diversas poéticas e elaborações estéticas. É preciso abrir espaço para criação e expressão do pensamento crítico, fortalecendo os processos de formação artística a garantindo a formação de público. O teatro não vai mudar o mundo, mas pode mudar as pessoas e as pessoas mudarão o mundo.

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O escritor Dorberto Carvalho Conversa com o Deputado Carlos Giannazi. Foto: Acervo do autor.

Alzira Re[vista] –  É notória a ausência de representação de pensadores e defensores da cultura e da arte na política brasileira, sobretudo no poder legislativo. Como você avalia este quadro?

Dorberto Carvalho Vivemos um quadro muito desfavorável não apenas para a arte e a cultura, mas para a sociedade em geral. Quase a totalidade do poder legislativo está a atrelado a interesses corporativos que em nada se aproximam do interesse público. Quando Augusto Boal foi eleito vereador da cidade do Rio de Janeiro, ainda não se tinha suficientemente claro os limites da democracia brasileira. Hoje com toda experiência acumulada pela Cooperativa Paulista de Teatro, mesmo com todas as limitações do poder legislativo, aprendemos a transitar pelo universo da política institucional dialogando com todos os setores mantendo a necessária independência. Avaliamos então que é chegada a hora de termos nossos representantes nesse espaço político para avançarmos em nossas proposições e defender os interesses da população da cidade de São Paulo.

Alzira Re[vista] –  Em sentidos vários, e até opostos, vários equipamentos culturais como CEUs, Fábricas de Cultura, Oficinas Culturais e Pontos de Cultura chegaram às áreas mais afastadas da cidade de São Paulo. As comunidades estão realmente integradas a estes modelos? O que poderia ser feito de fato?

Dorberto Carvalho Fomentar a cultura na periferia não é apenas construir prédios ou apoiar financeiramente alguns projetos. É preciso constituir um projeto de integração entre os diversos equipamentos municipais e estaduais. É preciso pensar um amplo projeto de integração com a comunidade a partir da formação artística e formação de público, integrando a juventude das escolas públicas em atividades curriculares. É preciso formar gestores que residam na região dos equipamentos e mantenham estreita relação com a população local, dialogando e ouvindo propostas e críticas por meio de conselhos formados pela comunidade do entorno, enfim, é preciso uma política de Estado, coisa que parece muito distante se olharmos apenas para o Sistema Nacional de Cultura. 

Alzira Re[vista] –  Uma questão expressiva hoje no cenário cultural e artístico da cidade de São Paulo foi o apelo de vários agentes pela criação do Fomento à Periferia, um modo de apoiar a produção que acontece efusivamente em locais afastados do centro e das regiões abastadas da cidade. O que você pensa a respeito?

Dorberto Carvalho O Fomento às periferias é um projeto de lei que vem atender a uma enorme defasagem na produção cultural de São Paulo. Durante anos (talvez mais 500 anos) produziu-se um enorme descompasso no financiamento público para a cultura no Paíse as periferias das cidades foram abandonadas pelas políticas públicas. O fomento às periferias é uma política afirmativa em defesa de importantes territórios culturais da cidade. A própria organização que o produziu a partir de fóruns de cultura da periferia e a clareza com que foi defendido na câmara são um reflexo da qualidade artística e cultural que se tem produzido nesses territórios.

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Liberdade é pouco , peça com dramaturgia de Dorberto Carvalho e Direção de Rudifran Pompeu. Integrou a programação do projeto O Imaginário dos 50 ano do Golpe , idealizada em Conjunto com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, em Memória da Luta contra a Ditadura Militar no Brasil. Foto por Christiane Forcinito de 2014.

Alzira Re[vista] –  Você é coautor do livro A luta dos grupos teatrais de São Paulo por políticas públicas para cultura com Iná Camargo Costa. Há uma queixa constante dos artistas em relação ao Programa de Fomento ao Teatro da Prefeitura de São Paulo. Somente 30 grupos são contemplados por ano, mas a demanda é expressiva. Há realmente possibilidades de mudança neste sentido?

dorberto-11Dorberto Carvalho A implantação da lei de Fomento ao teatro para cidade de São Paulo em 2002 incentivou a formação de novos coletivos artísticos, elevou a qualidade da produção artística e decentralizou essa produção promovendo um maior acesso à população. Exemplo de política cultural estruturante, a lei se constituiu num marco para as políticas públicas para a cultura no Brasil e o seu sucesso foi responsável por uma crescente demanda por financiamento público para realização de pesquisa continuada. No entanto, particularmente não creio que toda essa demanda possa ser atendida por uma única lei como se pensou durante anos até a implantação do Prêmio Zé Renato de teatro. Novas leis e novos programas devem ser criados na cidade.  É preciso seguir em frente. Uma metrópole com as dimensões e a diversidade de produção artística da cidade de São Paulo reúne todas as condições para implantação de conjunto de políticas culturais que atenda a toda sua capacidade criativa.

Alzira Re[vista] –  Dom Helder Câmara costumava dizer assim em um de seus poemas: Nada de escravo de hoje ser senhor de escravo de amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos. Em tempos de esfacelamento da esquerda no Brasil e ascensão fascista em várias partes do mundo ainda é possível pensar o termo utopia? Quais as nossas utopias no que restou dos escombros do tempo presente?

Dorberto Carvalho A utopia assemelha-se a poesia. Lembro-me do filme A vida é bela em que o personagem busca um pouco de poesia dentro de um campo de concentração. Mesmo nesse tempo de grande exposição das forças conservadoras, com um Congresso formado por parlamentares que se comportam como senhores de escravo e capitães do mato, mesmo agora, é necessária a utopia. Os insucessos temporários não negam a viabilidade de uma sociedade justa e igualitária, pelo contrário, reafirmam sua necessidade. O que se tem chamado “esfacelamento da esquerda” talvez não seja um fenômeno totalmente negativo, nada é apenas negatividade. Temos que extrair as lições e seguir em frente. A política tem um sentido pedagógico.

Alzira Re[vista] –  Por fim, em tempos, para onde vai este a quem indago, Dorberto? Que será do futuro, este campo aberto (e minado)?

Dorberto Carvalho São muitas as armadilhas que conduzem à falsificação da vida. É preciso desconstruir os fetiches que envolvem as relações humanas dentro do universo capitalista e forjar as chaves para um mundo novo, uma nova perspectiva para vida. Essa é a minha utopia. É o que me move no campo artístico e político, assim, sigo em frente como um soldado que mira nos olhos de um anjo que tem a cabeça voltada pra trás.

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O escritor Dorberto Carvalho e a Deputada Federal Luiza Erundina. Foto: Acervo do autor.

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Indicado ao Prêmio Shell de Teatro 2016 pela dramaturgia de Dezuó, breviário das águas, Rudinei Borges é poeta, dramaturgo e ficcionista. Diretor e pesquisador de teatro. Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) com graduação em Filosofia. Autor dos livros Memorial dos meninos, Dentro é lugar longe, Teatro no ônibus e Chão de terra batida. Fundador do Núcleo Macabéa, onde coordena pesquisa poético-cênica sobre memória, dramaturgia e história oral de vida. Integrou o Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT) e cursos no Teatro Escola Macunaíma e na SP Escola de Teatro. Escreveu as peças Epístola.40 (2016), Dezuó, breviário das águas (2015), Revolver (2015), Fé e Peleja (2014), Agruras, ensaio sobre o desamparo (2013), Dentro é lugar longe (2013) e Chão e Silêncio (2012). Colaborou dramaturgicamente com o Coletivo Negro, Cia. do Miolo e Trupe Sinhá Zózima. Integrou a comissão de seleção da 3° Edição do Prêmio Zé Renato de Teatro e do Programa de Ação Cultural (Proac) de Bolsa de Incentivo à Criação Literária Infantil e/ou juvenil do Estado de São Paulo. Assina críticas de teatro e edita a página Alzira re(vista).