O Preceptor compõe retrato do Brasil em detritos

| Por Rudinei Borges |

Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.

[Bertolt Brecht]

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o-preceptor-revista-alzira-4Algumas montagens teatrais são marcadas [pulso vital] pela ânimo [energia] da presença do ator/atriz em cena, espécie corajosa de ardor que abre frestas para o encantamento na completude do corpo/voz em relação a tudo que compreende uma peça: o texto, a encenação, a cenografia, o figurino, os adereços, a iluminação e o lugar onde acontece o espetáculo, entre tantos outros elementos imprescindíveis. A alegria de fazer teatro em O Preceptor, peça da Turma 66 da Escola de Artes Dramáticas [EAD] da Universidade de São Paulo [USP], é de uma vitalidade invejável, algo que só encontramos em Bacantes [2016], a obra ritualística do Teatro Oficina Uzyna Uzona.

O mais paradoxal da excelente direção de Antônio Rogério Toscano é a encenação de uma comédia triste, tecida a partir da obra O Preceptor – Ou Vantagens da Educação Particular [1774], de Jakob Michael Reinhold Lenz [1751-1792]. A peça confronta pilares de uma educação castradora e a dor trágica da violência contra as mulheres. Adentra também a adaptação de Bertholt Brecht [1898-1956], responsável pela redescoberta de Lenz no século XX.

A comédia triste, encenada com pujança pela Turma 66 em O Preceptor, é a alegria anêmica de um Brasil que vive à míngua e à beira de suprimir as conquistas sociais da última década. Todo o cinismo das elites abastardas, subtendido ou às claras, aparece no entre e sai daquele professor que, em Lenz, se arrasta mediante a sua própria desgraça e no coro incansável dos atores que imprime, entre denúncias, alguma luz no fim do túnel.

A radicalização do elemento cômico, por vezes com algum escracho, acompanhado em cores fortes dos objetos cenográficos e adereços, abre caminhos, em verdade, para o que é mais característico e corajoso nesta montagem: o desvelamento, em retrato esgarçado defronte dos olhos do espectador, da hipocrisia de um país que flerta com o fascismo e a supressão de direitos constitucionalmente garantidos.

o-preceptor-revista-alzira-5A completude do trabalho dos atores e atrizes é de força envolvente que é quase um equívoco sublinhar esta ou aquela performance. Destaco aqui, por força da sequência encantatória que aparece na peça, a criação das personagens/figuras defendidas por Darília dos Santos Ferreira [decerto uma das futuras grandes atrizes da cena teatral em São Paulo], Luiza Romão [poesia/protesto em cena] e Fernanda Brandão [algo como sentir saudades de Giulietta Masina e Dercy Gonçalves]. Todavia, nomeio aqui todos os atores que integram o grande elenco de O Preceptor: Alessandro Martins de Barros, Camila Marx Cohen, Danilo Barbosa Martins, Evandro Cavalcante de Mattos, Hélio Toste Pereira Neto, Inayara Samuel Silva, Lilian Regina Gonçalves Almeida, Luiz Felipe Cunha Bianchini, Luiza Sousa Romão, Maria Eduarda Pellegrino Machado, Raquel Souza Parras, Romário Fernando dos Santos Oliveira, Vanderlei Elcio Cidral Junior e Wilson Walmick Holanda Campos Filho.

Os músicos em cena, em muitos sentidos, empreendem atmosferas que ecoam em toda a sala onde a peça é apresentada. As músicas inéditas, cantadas pelos próprios a[u]tores, talvez seja o ponto alto da peça, sobretudo quando compõem uma coletividade vocal que alicerça a perspectiva denunciativa do espetáculo. Essas canções, quando postas na voz de atores agrupados, formando verdadeira barricada física, uma vanguarda, seja em nudez ou com indumentárias brancas, configuram sentido sagaz do corpo como resistência à morte das liberdades individuais e coletivas erigidas por governos ilegítimos ou por pretensa educação pautada em preceitos religiosos excludentes e perseguidores, ou em apagamento da reflexão crítica.

o-preceptor-revista-alzira-3Outro elemento central nesta montagem é a contundência da cenografia que surge em parafernália que contrasta com os corpos em movimento. São objetos acumulados que, na maioria das vezes, implicitamente subvertem a cena com simbologias de significativa profundidade – como aquele vaso sanitário, asqueroso talvez, às avessas do mictório de Marcel Duchamp [1887-1968], onde detritos da existência são sepultados à revelia dos que querem viver.  É o vaso da morte. O mesmo vaso onde uma mulher se ajoelha e o limpa com a bandeira do Brasil. O que se faz ali, diante do objeto cenográfico, entre partituras corporais da atriz que empunha a bandeira nacional entre os dedos, é ato/ritual de limpar, numa reza, em meio às incertezas, os detritos do próprio país como se ela quisesse alcançar o que restou dele.

Esta versão de O Preceptor, escrita na cena do teatro paulistano duzentos e quarenta anos depois da escrita original de Lenz, é destes acontecimentos que nos fazem olhar o teatro como um lugar onde urge a utopia de tempos mais justos – das montagens teatrais mais corajosas que vi este ano.

o-preceptor-revista-alzira-1FICHA TÉCNICA

Direção Geral: Antônio Rogério Toscano
Criação: Turma 66 da EAD
Roteiro: Antônio Rogério Toscano e turma 66
Trilha sonora e estudos de luz e figurino: turma 66
Arte gráfica: Walmick Campos
Iluminação: Coletivo C9
Cenotécnica: Zito Rodrigues
Produção Executiva e bilheteria: Bertha S. Heller
Agradecimento especial: Carmina Juarez e Emir Tomazelli
Músicos: Adriano Chuva e Eduardo Florence

SERVIÇO

Data: 9 de novembro a 4 de dezembro
Horário:  4ª a sábado às 20h  | e domingo às 19h
Local:  Teatro Laboratório da ECA – Sala Miroel Silveira – 175 lugares
Duração: 180 minutos
Classificação: maiores de 18 anos

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rudinei-borges-1RUDINEI BORGES – Autor indicado ao Prêmio Shell de Teatro 2016 pela dramaturgia de Dezuó, breviário das águas, Rudinei Borges é poeta, dramaturgo e ficcionista. Diretor e pesquisador de teatro. Escreveu a maioria de suas peças a partir de estudo memorialista em história oral de vida e imersão em comunidades ribeirinhas amazônicas e favelas de São Paulo. Autor dos livros Epístola.40: carta [des]armada aos atiradores, Memorial dos meninos, Dentro é lugar longe, Teatro no ônibus e Chão de terra batida. Despertou o interesse de críticos como Affonso Romano de Sant’Anna, desde o lançamento de seu primeiro livro. Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo [USP], com análise da dialocicidade em Martin Buber. Graduou-se em Filosofia. Fundador do Núcleo Macabéa, onde coordena pesquisa poético-cênica em história oral de vida, com residência artística na Favela do Boqueirão. Integrou o Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André [ELT], o curso de Direção da SP Escola de Teatro e a formação de atores do Teatro Escola Macunaíma. Iniciou os seus estudos teatrais em grupos populares de comunidades eclesiais de base e movimentos sociais de Itaituba [PA], onde nasceu. Foi contemplado pelo Concurso de Texto Inédito de Dramaturgia do Programa de Ação Cultural [ProAC], do Governo do Estado de São Paulo, na edição de 2011. Escreveu as peças Epístola.40: carta [des]armada aos atiradores, Luzeiros, Dezuó, breviário das águas, Revolver, Fé e Peleja, Agruras, ensaio sobre o desamparo, Dentro é lugar longe e Chão e Silêncio. Colaborou dramaturgicamente com o Coletivo Negro, a Cia. do Miolo e a Trupe Sinhá Zózima. Integrou a comissão de seleção da 3° Edição do Prêmio Zé Renato de Teatro e do Programa de Ação Cultural [ProAC] de Bolsa de Incentivo à Criação Literária Infantil e/ou Juvenil do Estado de São Paulo. Assina críticas de teatro e edita a página Alzira re[vista].