Vestígios da gente submersa

| Por Rudinei Borges |

Andorinha lá for está dizendo:
– “Passei o dia à toa, to toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, a toa …

| Andorinha – Manuel Bandeira |

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Na cidade de São Paulo grande parte da população descende de estrangeiros e migrantes rurais. Aí vários modos de vida são recriados. A inspiração rural, por exemplo, está presente nos infalíveis tomateiros e pés de chuchu plantados nos quintais de pequenas dimensões. Isso mostra que embora as escolas, as igrejas, os meios de comunicação e os museus ensinem as pessoas a ter um modo de vida refinado, civilizado e eficiente – isto é, culto –, elas não conseguem evitar que muitos objetos e práticas qualificadas como populares pontilhem seu cotidiano. Nesse aspecto, o refinado, civilizado e eficiente refere-se ao culto e o mau gosto, ingênuo, pitoresco e ineficaz refere-se ao popular. A ambivalência, em relação ao que é identificado como popular, não decorre apenas do desconhecimento da beleza, eficácia e adequação insuspeitas do que é culturalmente alheio para aqueles que tomam para si e para os seus semelhantes a tarefa de catequizar o resto da sociedade. 

As atitudes contraditórias em relação à cultura popular resultam em grande medida de alguns paradoxos. Nas sociedades industriais, sobretudo nas capitalistas, o trabalho manual e o trabalho intelectual são pensados e vivenciados como realidades profundamente distintas uma da outra. Há um enorme desnível de prestígio e de poder entre essas profissões decorrentes da concepção generalizada na sociedade de que o trabalho intelectual é superior ao manual. Para a sociedade capitalista o que é popular é necessariamente associado ao fazer desprovido de saber.

A cultura popular, porém, (res)guarda potencial pujante de resistência às opressões, sobretudo nas grandes metrópoles, onde são rechaçados com desprezo quase tudo o que se origina das camadas mais pobres. A resistência à dominação de classes pela cultura popular ocorre, como defende o professor Antonio Augusto Arantes, com os diversos modos de expressão artística, como a literatura oral, a música, o teatro e a poesia. Nesse caso, os eventos são pensados no futuro, vislumbrando neles indícios de uma nova ordem social. A gente submersa (2017), nova obra cênica do Teatro do Incêndio, uma das companhias mais ativas do centro de São Paulo, surge nesse contexto de instauração da esperança pela fé, festejo e resistência advindas da cultura popular.

A gente submersa instaura espécie de terreiro jovial e ritualístico – um mosaico, tecido com rendas, que desvela a festança e a peleja dos brasis de dentro, por vezes silenciados. Assim, boi bumbares, negrinhos do pastoreio, procissões, ex-votos, ditos populares, santas encontradas em ribeiros, gente dos quilombos, meninos e pretos velhos atualizam, a um só tempo, as matizes de tradições que povoam o imaginário da cultura brasileira ao longo dos séculos e resistem, ainda hoje, ao apagamento.

A peça se estabelece no território do afeto, no campo primoroso da empatia, caro ao teatro. A despeito da avalanche de obras cênicas apresentadas em São Paulo, compostas para agradar intelectuais, pautadas pela última moda dos festivais europeus ou das últimas peças de Bob Wilson (1941) encenadas no Brasil, o Teatro do Incêndio segue por caminhos mais afeitos a uma conjunção inventiva do encontro de dois dos nossos grandes dramaturgos: Ariano Suassuna (1927-2014) e Carlos Alberto Soffredini (1939-2011). A delicada dramaturgia e encenação de Marcelo Marcus Fonseca parece, em muitas nuanças, atualizar ideias do Movimento Armorial e da criação de Soffredini sobre o universo caipira do interior paulista – uma pesquisa muito bem-vinda.

A empatia (Nunca um adjetivo, mas uma condição. Palavra do Grego EMPATHEIA, “paixão, estado de emoção”, formado por EN-, “em”, mais PATHOS, “emoção, sentimento”. A ideia é estar “dentro” do sentimento alheio) estabelecida em A gente Submersa acontece, em especial, quando personagens tão peculiares se aproximam do público que assiste à peça, promovendo um movimento de acolhida, mediante a presença cativante dos atores, de modo que todos ali celebram num só espaço/tempo, numa só ciranda e num só quilombo que resiste na diversidade dos múltiplos rostos que o compõe. Nesse sentido, a obra do Teatro do Incêndio nunca se coloca num pedestal distante, virando as costas ao espectador, nem o condiciona à ingenuidade, no entanto, o compreende como participante e ativo na ritualística ali realizada – um evento que o teatro de grupo torna vivo, mesmo em tempo de fascismos, individualismos e consumismos exacerbados. Não nos causa estranheza que a peça tão bem dialogue com espetáculos de festa e resistência, como Da Santa, do Núcleo do 184, e com Sangoma, uma das mais importantes criações cênicas da Capulanas Cia. de Arte Negra.

23361053_1508139755906054_400763703_nA empatia e a jovialidade dos atuadores, um grupo de pelo menos 20 artistas, convidam-nos a olhar o teatro como lugar possível de inserção e recriação da vida. Muitos atores e atrizes como Lia Benacon dos Santos, Bianca Brandino de Castro Assis, Lucas Galhardo Dantas, João Lucas dos reis Gonçalves, Ellen da Costa Martins, Hisadora Benevides de Oliveira, Thalía Melo Macedo, Gabriel Magalhães, Julieta Guimarães, Mariana Cortez Lima Ribeiro, Raquel de Lacerda e Vinicius Santos Julião talvez inaugurem ali os primeiros passos nas artes cênicas, na feitura artesanal de uma montagem teatral como criadores e protagonistas de um espaço que reinventa a cidade e nos move a alcançar o belo na arte e na alteridade – o que também podemos afirmar sobre o trabalho de André Souza, Valcrez Siqueira e Victor Castro.

A excelente atuação de Anderson Negreiro, Elena Vago e Gabriela Morato nos conduz a acompanhar fartamente o trajeto de Benedito Messias, Lourdes e Fulozina, três figuras alegóricas da sabedoria popular que atravessaram os tempos do mundo rural à crueza das metrópoles. O trabalho de criação de Morato, como Lourdes, é dos pontos altos da peça e do trajeto da atriz no Teatro do Incêndio. Morato protagoniza um dos momentos mais memoráveis de A gente Submersa quando Lourdes, que acabara de ser alfabetizada num quilombo, balbucia o poema Andorinha de Manuel Bandeira  (1886-1968). A soletração do poema, publicado em 1930 no livro Libertinagem, é destes instantes singulares que nos faz abraçar o sentido profundo da necessidade do teatro como instituição fundamental de uma cultura calcada no esquecimento, como a nossa.

Aliás, toda a dramaturgia, compõe-se em tessitura fincada na palavra poética – algo de beleza aguçada como quando ouvimos o poema sobre o negrinho do pastoreio, logo no preâmbulo. O mesmo ocorre com as composições originais de Fonseca e Bisdré Santos. Tudo isto somado a iluminação de Kleber Montanheiro, fresta que nos leva ao encantatório com o teto de estrelas que finda a peça (sem spoiler).

A gente submersa é um trajeto corajoso que adentra os estirões da cultura popular dos brasis e que ousa resistir à boca devoradora das grandes cidades. É, como nos conta no programa da peça Diego Dionísio, presidente da comissão de folclore de São Paulo, um enredo permeado de cantorias e proseadores; mostra a tradição que se transforma e permanece, trazendo no poético o drama de viver, de existir, festejar, rezar e amar. Uma das peças mais bonitas do teatro em São Paulo neste segundo semestre.

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rudinei-borges-1RUDINEI BORGES  – Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo [USP], com análise da dialocicidade em Martin Buber [2014]. Graduou-se em Filosofia [2005]. Autor indicado ao Prêmio Shell de Teatro 2016 pela Dramaturgia de  Dezuó, breviário das águas, Rudinei Borges é poeta, dramaturgo e ficcionista. Diretor e pesquisador de teatro. Escreveu a maioria de suas peças a partir de estudo memorialista em história oral de vida e imersão em comunidades ribeirinhas amazônicas e favelas de São Paulo. Autor dos livros  Epístola.40: carta [des]armada aos atiradores  [2016],  Memorial dos meninos  [2014],  Dentro é lugar longe  [2013],  Teatro no ônibus  [2013] e  Chão de terra batida  [2009]. Despertou o interesse de críticos como Affonso Romano de Sant’Anna, desde o lançamento de seu primeiro livro. Fundador do Núcleo Macabéa, onde coordena pesquisa poética-cênica em história oral de vida [2011]. Integrou o Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André [ELT] [2012], Curso de Direção da Escola de Teatro [2010] e formação de atores do Teatro Escola Macunaíma [2007-2009]. Iniciou os seus estudos em grupos populares de comunidades eclesiais de base e movimentos sociais de Itaituba [PA], onde nasceu. Foi contemplado pelo Concurso de Texto Inédito de Dramaturgia do Programa de Ação Cultural [ProAC], do Governo do Estado de São Paulo, edição de 2011. Escreveu as peças  Medea Mina Jeje  [2017],  Epístola.40  [2016],  Luzeiros  [ 2016],  Dezuó, breviário das águas  [2016],  Revolver  [2015],  Fé e Peleja [ 2014], Agruras, ensaio sobre o desamparo  [2013],  Dentro é lugar longe  [2013] e  Chão e Silêncio  [2012]. Colaborou dramaturgicamente com o Coletivo Negro, a Cia. do Miolo e a Trupe Sinhá Zózima. Integrou a comissão de seleção da 3 ° Edição do Prêmio Zé Renato de Teatro [2015] e do Programa de Ação Cultural [ProAC] de Bolsa de Incentivo à Criação Literária Infantil e/ou Juvenil do Estado de São Paulo [2016] e do Concurso de Incentivo a Projetos de Criação e Publicação Literária em Poesia [2017]. Assina crítica de teatro e edita a página Alzira re [vista] [www.alzirarevista.com] e textos literários em Memorial dos Meninos [www.memorialdosmeninos.com].