Eu nunca mais vou voltar por aí

Por Rudinei Borges

Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. (Clarice Lispector)

artworks-000199902870-e8s6o7-t500x500Eu nunca mais vou voltar por aí, peça com reelaboração de Cacá Carvalho a partir da proposta cênica da atriz Maria Cordélia, é um passeio criativo pelas mal traçadas linhas da busca humana da liberdade possível pelo viés feminino. Sabendo-se a liberdade como invenção humana, a atriz, em solo autoral, persegue a trajetória de uma mulher que anseia seguir as suas próprias escolhas, movida por intensa necessidade de viver. 

Eu nunca mais vou voltar por aí compreende um inventário de cantorias, muito bem interpretadas por Cordélia, acompanhas pelo violão da atriz. Aliás, o conjunto de canções selecionadas atua como cativante fio condutor dos caminhos circulares e, ao mesmo tempo, desviantes desenhados como cenário da peça.  

Entre velas e lâmpadas, a atriz manipula areia e outros implementos que conduzem o espectador ao seu universo mítico e afetivo, provocando imediata empatia e envolvimento do espectador. A peça equilibra – às vezes no cambaleio da existência –momentos de dor e vigor, além de projetar o futuro à espera – sempre a depender das iniciativas e investidas da narradora.  

Eu nunca mais vou voltar por aí, em muitos sentidos, dialoga com as excelentes produções cênicas autobiográficas das atrizes Maria Alice Vergueiro e Janaína Leite. É um diário posto em cena o que vemos em Cordélia. Um diário aberto, mas metaforizado em poesia teatral. Em Why the horse? (Por que o cavalo?), Vergueiro celebra a liturgia da própria morte e o espectador é cúmplice do velório que talvez seja a própria vida. Já, em Conversas com meu pai, Leite desnuda os próprios fantasmas da conturbada, ou silenciosa, relação com o seu progenitor. Também encara o ambiente do luto. Com Cordélia o norte, que se desvela apenas na segunda metade da peça, é o desejo de tomar as rédeas da própria história mediante o papel, no que nos parece, opressor da mãe.

Cordélia, de um modo mais evidente, opta por provocar uma tomada de decisão que muda todo o trajeto percorrido: “livra-se” do domínio da mãe e tem no instrumento musical, o violão, algo que a motiva a alcançar novos horizontes. 

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rudinei-borges-1RUDINEI BORGES  – Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo [USP], com análise da dialocicidade em Martin Buber [2014]. Graduou-se em Filosofia [2005]. Autor indicado ao Prêmio Shell de Teatro 2016 pela Dramaturgia de  Dezuó, breviário das águas, Rudinei Borges é poeta, dramaturgo e ficcionista. Diretor e pesquisador de teatro. Escreveu a maioria de suas peças a partir de estudo memorialista em história oral de vida e imersão em comunidades ribeirinhas amazônicas e favelas de São Paulo. Autor dos livros  Epístola.40: carta [des]armada aos atiradores  [2016],  Memorial dos meninos  [2014],  Dentro é lugar longe [2013],  Teatro no ônibus  [2013] e  Chão de terra batida  [2009]. Despertou o interesse de críticos como Affonso Romano de Sant’Anna, desde o lançamento de seu primeiro livro. Fundador do Núcleo Macabéa, onde coordena pesquisa poética-cênica em história oral de vida [2011]. Integrou o Núcleo de Dramaturgia da Escola Livre de Teatro de Santo André [ELT] [2012], Curso de Direção da Escola de Teatro [2010] e formação de atores do Teatro Escola Macunaíma [2007-2009]. Iniciou os seus estudos em grupos populares de comunidades eclesiais de base e movimentos sociais de Itaituba [PA], onde nasceu. Foi contemplado pelo Concurso de Texto Inédito de Dramaturgia do Programa de Ação Cultural [ProAC], do Governo do Estado de São Paulo, edição de 2011. Escreveu as peças  Medea Mina Jeje  [2017],  Epístola.40  [2016],  Luzeiros  [ 2016],  Dezuó, breviário das águas  [2016],  Revolver  [2015],  Fé e Peleja [ 2014], Agruras, ensaio sobre o desamparo  [2013],  Dentro é lugar longe  [2013] e  Chão e Silêncio  [2012]. Colaborou dramaturgicamente com o Coletivo Negro, a Cia. do Miolo e a Trupe Sinhá Zózima. Integrou a comissão de seleção da 3 ° Edição do Prêmio Zé Renato de Teatro [2015] e do Programa de Ação Cultural [ProAC] de Bolsa de Incentivo à Criação Literária Infantil e/ou Juvenil do Estado de São Paulo [2016] e do Concurso de Incentivo a Projetos de Criação e Publicação Literária em Poesia [2017]. Assina crítica de teatro e edita a página Alzira re [vista] [www.alzirarevista.com] e textos literários em Memorial dos Meninos [www.memorialdosmeninos.com].