O ator Kenan Bernardes na peça Medea Mina Jeje, com dramaturgia de Rudinei Borges

Dança para Medea. Entre(vista) com Juliana Monteiro

Sacralização em Medea Mina Jeje

Após intensa temporada no Sesc Ipiranga, em São Paulo, a peça Medea Mina Jeje [dramaturgia de Rudinei Borges para a atuação de Kenan Bernardes] reestreia neste sábado, 12 de maio, no Teatro Pequeno Ato, e fica em cartaz até 17 de junho, sempre aos sábados [21h] e aos domingos [19h]. A encenação da peça é assinada por Juliana Monteiro, diretora de teatro, atriz, professora e doutora em Artes Cênicas pela Universidade de Campinas [UNICAMP]. A seguir, lemos os principais trechos da entrevista concedida pela encenadora à Alzira Re[vista].

Juliana Monteiro, diretora na peça Medea Mina Jeje
Juliana Monteiro, diretora da peça Medea Mina Jeje

Alzira re[vista] 130 anos após uma mal fadada abolição, pela Lei Áurea, por que retomar este tema tão cruel da história do Brasil: a escravidão nas minas de ouro no período colonial?

Juliana Monteiro – Este tema nos foi apresentado pelo dramaturgo, após um primeiro encontro, quando nós três (eu como diretora, Kenan Bernardes, ator, e o próprio Rudinei Borges) nos sentamos para conversar sobre alguns desejos e expectativas que o Kenan – que foi quem nos propôs a parceria – tinha para esse trabalho. Medeia era uma figura que já lhe interessava e Borges fez a ponte entre as duas narrativas (o mito grego e a mãe das minas). De todo modo, creio que voltar a este tema, por mais cruel que seja, é uma forma de revisitarmos aspectos de nossa história e de podermos refletir e transformar ou não repetir, não perpetuar questões como essa, que se fundamentam – dentre outros – no exercício de poder sobre o outro.

Alzira re[vista] Que inquietações do mito e da tragédia de Eurípedes [Salamina, ca. 480 a.C. — Pela, Macedônia, 406 a.C.] motivaram a reescritura e a encenação de Medea Mina Jeje? Que ideias norteiam a encenação?

Juliana Monteiro – Desde o início, propus para Kenan termos como subtexto da montagem a sacralização do ato sacrificial do filho pela mãe: como símbolo de um ato de liberdade… com um instrumento para aplacar estados de violência vigentes; como um meio de reparar erros, como a perpetuação de valores que reforçam os aspectos negativos e enclausurantes das diferenças. E mais, do que é que nós mesmos – para além da fábula apresentada em Medea Mina Jeje – queríamos nos libertar; quais ciclos não queríamos mais repetir em nossas vidas? O que o espetáculo significava para nós em termos de uma transformação pessoal inclusive? Pois a figura de Medeia implica um caminho de afirmação de saberes, de uma natureza e da ambivalência que lhe é intrínseca: seu potencial de criação, de destruição e de renovação. Por outro lado, Kenan me apresentou interesses artísticos: trabalhar com a linguagem da Performance e com a linguagem corporal. As duas acabaram norteando as escolhas do que foi posto em cena. Assim, inicialmente, o espaço foi concebido como uma instalação, por exemplo – que ganhou outros contornos à época da estreia -, e que seria preenchida, finalizada e dinamizada pelos demais elementos como luz e som. Assim, também parti da ideia de atuação e de ritualização de algumas ações que seriam realizadas… de participar o público disso.

Alzira re[vista] – Medea Mina Jeje é um obra cênica centrada, sobretudo, no trabalho do ator. Como foi o itinerário de preparação e quais foram as suas escolhas no processo de criação da peça?

Juliana Monteiro – Uma vez que a linguagem corporal se constituiria num dos fundamentos da montagem, partimos em busca de referências que alimentassem a composição do que chamamos “uma dança para Medea”. Para depois, realizarmos, na parte vocal, “um canto para Medeia”. Por se tratar de um trabalho solo, cabendo ao performer orquestrar a expressividade do lugar e moldar seu ambiente, também solicitei ao Kenan que me apresentasse sua própria versão de ocupação espacial, de sonorização, um esboço de figurino… como que para ele incorporar estes elementos aos poucos. Também alimentei, sob a influência do teatro japonês, a ideia de um ato dançado – o que é levado à cena é desenhado, trabalho sob a perspectiva rítmica da composição da linguagem corporal, que deverá falar tanto quanto a palavra.

O ator Kenan Bernardes na peça Medea Mina Jeje, com dramaturgia de Rudinei Borges
O ator Kenan Bernardes na peça Medea Mina Jeje, com dramaturgia de Rudinei Borges

Alzira re[vista] Medea Mina Jeje, como reinvenção a partir de Eurípedes, é um poema cênico. Como se deu a sua criação, como encenadora, diante da densidade do texto?

Juliana Monteiro – Bem, como materializar, em cena, um poema… ou, como poetizar uma cena? Me vem muito as provocações de Artaud – de uma poesia física, concreta e plástica…. Ou ainda, de um teatro como o Nô, cujo espaço, por exemplo, é materializado pela ação vocal dos atores… Como dar vazão e/ou realizar algo dessa ordem; transformá-los em imagens e sons potentes? Primeiramente, a ideia foi a de criar uma estrutura (a física, portanto) que permitisse que as palavras ressonassem. Daí, partimos para um trabalho com o texto, para a escuta das palavras em si: sua materialidade; depois, sua potencialidade rítmica e melódica como um todo…. O encadeamento do pensamento da fala a partir da linguagem proposta pelo autor; o que deveria soar/afetar, o que deveria ser emitido quase de forma inaudível, como um segredo, como algo que não pode ser dito. Havia também a multiplicidade de vozes no texto, que identificamos como vozes de Age, de Medea, de um narrador, de Jasão, da comunidade…. Assim como essas possibilidades, também deixamos em aberto a temporalidade dos acontecimentos – o que acontece na peça seria uma lembrança de Medeia; seria algo que se deu logo após a morte de Age? Como uma maneira de também constituir uma espécie de fantasmagoria sonora.

Alzira re[vista] Medea Mina Jeje é uma peça de teatro independente, montada sem qualquer apoio de editais ou patrocínio. Quais as alegrias e percalços de fazer teatro em tempos tão difíceis?

Juliana Monteiro – Para responder a esta pergunta, tento me lembrar de momentos mais tranquilos… e eles existiram na história do teatro nacional – houve quem comprou casa com o que ganhou de bilheteria…. Também me proponho ao exercício do “fazer, a despeito de..” de não ter de depender, necessariamente, de um edital para fazer o que precisa ser feito….. E como não baratear o próprio trabalho diante disso tudo; como, ainda assim, manter a dignidade? Acho que estes são os maiores percalços e contradições de um processo como esse. Das alegrias, há o fato de fazer porque estava a fim; de não ter obrigação; de não ter que justificar escolhas a não ser pelo fato de que foram colocadas em cena as que pareciam funcionar… Ficar em trabalho intensivo, morando na casa do ator e ensaiando na sala de um apartamento (como banda de garagem) para fechar o primeiro esboço do espetáculo…

Medea E-flyer 2

SERVIÇO
Medea Mina Jeje
De 12/05 a17/06
Sábados, às 21h; domingos, às 19h
Teatro Pequeno Ato
Endereço: Rua Dr. Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo. Ao lado do Teatro de Arena
Ingressos: 30,00 (inteira) e R$15,00 (meia)
Vendas on-line pelo: https://www.sympla.com.br/medea-mina-jeje__281352
Bilheteria: 1h antes do início do espetáculo
Duração: 40 minutos
Lotação: 40 lugares
Classificação: 14 anos

FICHA TÉCNICA
Concepção, atuação e produção geral: Kenan Bernardes
Dramaturgia e pesquisa teórica: Rudinei Borges
Direção, espaço cênico e direção de movimento: Juliana Monteiro
Luz: Wagner Antônio
Assistente de iluminação: Douglas de Amorim
Desenho de som e difusão sonora: João Paulo Nascimento
Figurino e visagismo: Carol Badra
Desenho de canto e provocação em ação vocal: Maria Cordélia
Provocação corporal: Luciana Lyra
Orientação na pesquisa teórica: Salloma Salomão
Artista gráfico: Murilo Thaveira
Fotos: Julieta Bacchin
Vídeo: Bruta Flor Filmes