Vestígios do corpo afro-oriental em Medea Mina Jeje. Entre[vista] com Kenan Bernardes

Após período de intensas apresentações no Sesc Ipiranga, em São Paulo, a peça Medea Mina Jeje [dramaturgia de Rudinei Borges e direção de Juliana Monteiro] iniciou segunda temporada no dia 12 de maio, no Teatro Pequeno Ato, e fica em cartaz até 17 de junho, sempre aos sábados [21h] e aos domingos [19h]. A atuação da peça é assinada por Kenan Bernardes, um dos atores mais ativos e inquietos de sua geração. Formado pela Escola Livre de Teatro de Santo André [SP], Bernardes, ao longo de sua trajetória, participou de montagens teatrais com a Cia. Club Noir, Coletivo Quizumba e Coletivo 28 Patas Furiosas. A seguir, lemos os principais trechos da entrevista concedida, pelo ator, à Alzira Re[vista].

Alzira re[vista]  130 anos após uma mal fadada abolição, pela Lei Áurea, por que retomar este tema tão cruel da história do Brasil: a escravidão?

Kenan Bernardes – A gente vive em uma cultura acostumada a silenciar-se ante às questões mais delicadas e sensíveis, pra não dizer traumáticas,  da nossa História. Somos um povo que tem uma enorme dificuldade em olhar-se no espelho e encarar de frente  a beleza e o horror de sermos quem somos. A gente “varre pra debaixo do tapete”, a gente coloca “panos quentes” nas coisas, porque, enquanto povo, temos essa dificuldade em nos colocarmos peito aberto diante de nossas mazelas. A herança legada pela escravidão, como muitas outras questões que temos, é, ainda hoje, ferida aberta, que demanda muita elaboração. É uma pauta dolorosa para todos os lados. Entendo que a gente, de todas as cores de nossa paleta, precisamos falar, falar e falar sobre esse tema. Elaborar os conteúdos, passar por esse caminho de desconforto até que consigamos materializar ações que sejam capazes de estabelecer justiça.  E poder atuar no campo do sensível, do imaginário é poderosíssimo, porque há a possibilidade de experienciar junto com a plateia uma questão que nem sempre é fácil colocar em palavras.

Alzira re[vista]  Que inquietações do mito e da tragédia de Eurípedes [Salamina, ca. 480 a.C. — Pela, Macedônia, 406 a.C.] o motivaram a uma reescritura cênica de Medea? Quais foram os seus anseios?

Kenan Bernardes – Medea é minha grega preferida há muito tempo. Passei um longo tempo estudando o mito, lendo e relendo o texto original em busca de um lugar de fala que coubesse na minha boca. Porque, até então, eu só tinha visto montagens, cuja ênfase recaía na relação conjugal entre a heroína e Jasão. Foi através de Pasolini, o cineasta italiano, que eu comecei a vislumbrar a trajetória focada em Medea, enquanto uma estrangeira, cuja narrativa relacionava-se mais à jornada de alguém que ansiava reconectar-se com sua ancestralidade do que na Medea, cujas ações giravam em torno de sua relação com Jasão. Obviamente esse olhar para a própria ancestralidade também vem sendo um processo pelo qual eu mesmo tenho percorrido nos últimos anos e ansiava elaborar simbolicamente as discussões e estudos que vinha tendo com meus pares, a fim de criar no tempo e no espaço palavras que dessem conta da elaboração dessa experiência.

O ator Kenan Bernardes em "Medea Mina Jeje". Foto/Julieta Bacchin
O ator Kenan Bernardes em “Medea Mina Jeje”. Foto/Julieta Bacchin

Alzira re[vista]  Medea Mina Jeje é um obra cênica centrada, sobretudo, no trabalho do ator. Como foi o itinerário de preparação e quais foram as suas escolhas no processo de criação da peça?

Kenan Bernardes – Embora a gente esteja falando de Áfricas, ao trazer para o centro da cena uma Medea negra, eu desejava construir uma obra que tanto respondesse à minha ancestralidade negra, quanto perpassasse pelas experiências multiculturais que meu corpo carrega, como a de ter morado no Oriente por um longo período, por exemplo.  Desde o início, era muito importante permitir o ressoar das minhas heranças e, com isso, estabelecer um elo mais íntimo com a história dos meus ancestrais sem me desconectar do fato de que múltiplas experiências transculturais me habitam. A Juliana [Monteiro, diretora do espetáculo] foi fundamental no sentido de corroborar para que se materializasse, no tempo e no espaço, um imaginário que, a princípio, poderia parecer contraditório. Uma das primeiras coisas que eu quis para esse projeto foi construir quadros, dentro dos quais meu corpo pudesse atuar como uma tinta a preencher uma tela. As danças tradicionais e contemporâneas de algumas regiões da África, entrelaçadas com algo que remetia ao butoh japonês, somaram para que criássemos um corpo que a gente brinca denominando-o de afro-oriental. Isso trouxe para o espetáculo a construção de tempos de suspensão de uma muita beleza e que exigem do espectador uma disponibilidade para embarcar em uma experiência de contemplação.

Alzira re[vista]  Medea Mina Jeje, como reinvenção a partir de Eurípedes, é um poema cênico. Como se deu a sua criação, como ator, diante da densidade do texto?

Kenan Bernardes – Eu venho de uma trajetória que passa pelo teatro pós-dramático e que lida com a palavra como um elemento capaz de inaugurar mundos. Eu realmente acredito nisso. O trabalho em Medea foi muito mais de buscar um lugar onde eu pudesse habitar as palavras que a escuta dramatúrgica desenhou do que apenas ser habitado pelas por elas. Não sou eu que contenho as palavras. São elas que me têm. Ao menos essa é a busca…

Alzira re[vista]  Você, além de ator, assume a idealização e produção desse projeto. Quais as alegrias e percalços de fazer teatro em temos tão difíceis?

Kenan Bernardes – Não gosto de ficar reclamando, as dificuldades estão postas para todos nós que vivemos de teatro, de pesquisa. Desde sempre. Há períodos em que eu desejo estar mais na sala de ensaio e na cena que atuando no “escritório”, trabalhando para que o espetáculo aconteça, mas entendo que isso faz parte. Forja caráter e vai dando mais gana quando se sabe que existe algo em suas mãos que precisa ser feito. Penso que a alegria está arraigada no fato de, após longo período de muito trabalho, poder compartilhar com as pessoas uma experiência que tem o potencial de tocar lugares sensíveis da nossa experiência humana. Poder deixar um legado, que altere a dinâmica do imaginário de quem vê é o que move meu espírito.    

Medea E-flyer 2SERVIÇO
Medea Mina Jeje
De 12/05 a17/06
Sábados, às 21h; domingos, às 19h
Teatro Pequeno Ato
Endereço: Rua Dr. Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque, São Paulo. Ao lado do Teatro de Arena
Ingressos: 30,00 (inteira) e R$15,00 (meia)
Vendas on-line pelo: https://www.sympla.com.br/medea-mina-jeje__281352
Bilheteria: 1h antes do início do espetáculo
Duração: 40 minutos
Lotação: 40 lugares
Classificação: 14 anos

FICHA TÉCNICA
Concepção, atuação e produção geral: Kenan Bernardes
Dramaturgia e pesquisa teórica: Rudinei Borges
Direção, espaço cênico e direção de movimento: Juliana Monteiro
Luz: Wagner Antônio
Assistente de iluminação: Douglas de Amorim
Desenho de som e difusão sonora: João Paulo Nascimento
Figurino e visagismo: Carol Badra
Desenho de canto e provocação em ação vocal: Maria Cordélia
Provocação corporal: Luciana Lyra
Orientação na pesquisa teórica: Salloma Salomão
Artista gráfico: Murilo Thaveira
Fotos: Julieta Bacchin
Vídeo: Bruta Flor Filmes