Nomen ou A chuva cuspindo disparos e locomotivas

Por Rudinei Borges dos Santos

Nomen (“nome” em latim) guarda interpretações inúmeras, em virtude da complexidade do bojo poético do texto de Bruno Feldman. Aqui apresentamos, em brevidade, uma possível compreensão, da nova obra cênica da Cia. do Caminho Velho em parceria com a Cia. do Pássaro, encenada na cidade de São Paulo.

Feldman elege a travessia do significado e sons das palavras como caminho para o arranjo de um marco poético que se alicerça no vigor do arcaico (arché = ἀρχή), acepção primeira – a mais antiga – para mover o sentido dos vocábulos proferidos, constituindo espécie de prece perturbadora. Todo o trajeto leva o espectador a se deparar com a atrocidade da comovente condição humana em trincheiras de guerra, campos de batalha. Mas as trincheiras de Nomen se espalham – daí a perturbação – por todo o alcance compreensível da existência. Sofrer seria a razão de existirmos? A pergunta seria válida. Em Nomen não há perdão, todo escombro é escancarado, todo território minado se põe sob os pés.

Nomen também guarda irmandade com outro importante trabalho da Cia. do Caminho Velho, a peça Bonita (2015), de Dione Carlos. As duas obras ganham corpo com a encenação ímpar de Alex Araújo, composição ancorada no (des)enredamento dos textos e, sobretudo, no estudo da luz como meio instaurador de atmosferas múltiplas. Araújo esgarça o rosto dos atores perante ranhuras de claridade, fractais que surgem em lâmpadas espalhadas pelo espaço de apresentação. Quase sempre o breu é ferido, aqui e acolá, por frestas de luz que desvelam a corrosão perturbadora das atmosferas cênicas propostas.

A parafernália criativa de Araújo, movida em espaços diminutos e de intimidade flagrante, põe os atores numa proximidade contínua com o espectador. Em particular, na peça Nomen algo de doído se impõe nessa relação quando os personagens (ou atores?), aturdidos em seus mantras, olham – face a face – o espectador à frente, como se confessassem a miséria humana que trazem consigo. Nesse sentido, é notória a confluência entre os atores Carolina Erschfeld e Dawton Abranches com a envergadura poética da encenação, o que coaduna para a instauração de estados deflagradores da condição dizimadora em que os personagens se confrontam.

O mar de espectros, o panorama apocalíptico que notamos em Nomen, vem, desde o princípio da peça, na sonoplastia de Carlos Ronchi. O mosaico sonoro assinado por Ronchi erige espécie de paisagem surrealista em que ouvimos, entre disparos de metralhadoras, a chuva infindável do dilúvio como que dando à luz, parindo uma locomotiva que segue não sabemos sequer para onde. Para lugar nenhum talvez. Recorda algo imensurável daquele poema em que e. e. cummings (1894-1962) escreve sobre uma “locomotiva cuspindo violetas”.

Todo corpo morto que apodrece na solidão daquele escombro, ou mausoléu, evocado em Nomen é sepultado à vista dos transeuntes – o espectador mais uma vez é cúmplice do ritual fúnebre que ali se estabelece. É a arte de morrer do humano ou a arte que esvai quando o humano abraça o signo da morte com a destruição de si e dos outros. Não há saída.

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rudinei-borges-1RUDINEI BORGES DOS SANTOS – Educador, dramaturgo, poeta e ficcionista. Seus estudos situam-se no âmbito da educação, literatura e artes cênicas. É doutorando pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo com pesquisa em teatro, educação e narrativas (auto)biográficas. Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, defendeu a dissertação O princípio dialógico: a educação como preparação para o sentido de comunidade em Martin Buber. Graduou-se em Filosofia. É de sua autoria, pelo menos, 10 textos teatrais encenados em Angola e no Brasil, entre eles Dezuó, breviário das águas, indicado ao Prêmio Shell de Teatro. Autor dos livros Epístola.40, Memorial dos Meninos, Dentro é Lugar Longe e Chão de Terra batida. Em 2011, fundou o Núcleo Macabéa, da Cooperativa Paulista de Teatro, onde atua como diretor artístico e dramaturgo.