De volta a Reims. Entrevista com Pedro Vieira

Em julho de 2017, no Festival de Teatro de Avignon [França], o ator Pedro Vieira assistiu à montagem de Retour à Reims, adaptada por Laurent Hatat da obra homônima e autobiográfica de Didier Eribon. Assim, como Eribon, Vieira revisitou sua vida, reviu seus passos e memórias. E foi inevitável não se lembrar dos anos de sua infância em Palmeiras dos Índios, no agreste alagoano. Em 2019, Vieira realiza a primeira temporada da versão brasileira do texto autobiográfico do filósofo francês. De volta a Reims surge como livre adaptação pelas mãos de Reni Adriano, com direção de Cácia Goulart.

Após três décadas, atordoado pela morte do pai, o narrador volta à sua cidade natal, Reims, e traz à tona temas como a subjetividade homossexual, o abandono da família e a dificuldade de assumir a sua classe social de origem. A peça compõe uma aguçada crítica aos desvios da esquerda e ascensão da extrema direita na Europa, sempre fazendo discretas referências à atual realidade brasileira.

De volta a Reims segue em cartaz no Viga Espaço Cênico, em São Paulo, até 27 de junho.

A seguir, compartilhamos a entrevista que o ator Pedro Vieira concedeu ao poeta e dramaturgo Rudinei Borges dos Santos, editor do site Alzira Re[vista].

«O ator Pedro Vieira em "De volta a Reims" - Foto por Cacá Bernardes»
«O ator Pedro Vieira em “De volta a Reims” – Foto por Cacá Bernardes»

Rudinei Borges dos Santos – Inicio com uma asseveração inquietante do autor da peça, Reni Adriano. Reni, que livremente se inspira no livro Retour à Reims, de Didier Eribon, afirma que: “Narrar uma vida e ponderar sobre ela é também refletir sobre o quadro político e social que emoldura essa trajetória. Ao seguirmos os passos do narrador, tomamos consciência de que mesmo seus menores gestos e palavras (…) expressam as estruturas de classe à qual ele pertence ou pertenceu”. Parece-nos que a questão da classe social é espécie de alicerce sobre o qual se firma o discurso em De volta a Reims. Como essa questão pessoalmente o inquieta?

Pedro Vieira – De fato a questão da classe social é um alicerce importante no discurso do espetáculo. As estruturas sociais formam a identidade; as nossas ações são o reflexo das estruturas de classe e das instituições nas quais nós nos formamos, então temos que mostrar claramente o lugar de onde estamos falando para, inclusive, resistir às investidas negativas, o racismo e a homofobia. Só resiste ao racismo quem é negro, assim como somente os gays resistem à homofobia. Então, ouso dizer que, quando se tem tais estruturas cravadas na carne, potencializa-se o discurso, e o espetáculo cumpre esse papel.

Rudinei Borges dos Santos – Como ocorreu o seu encontro com a obra filosófica de Didier Eribon? O que motivou a realização a montagem da peça no Brasil?

Pedro Vieira – Em 2014 fui ao Festival de Avignon a procura de um monólogo e trouxe para o Brasil Eu Tenho Tudo de Thierry Illouz. Convidei a atriz e diretora Cácia Goulart para dirigir, e de imediato ela aceitou a empreitada que estreou em março de 2016. No ano seguinte voltei a Avignon em busca de outro texto, desta vez procurava algo para dois ou três atores. Assisti Retour a Reims adaptado por Laurent Hatat, nessa montagem havia dois personagens (mãe e filho). Na quinta vez que assisti procurei o Hatat e expus meu interesse pelo texto. Falei de nossa situação política no Brasil, da ameaça da extrema direita que avançava no país, das altas taxas de homicídios contra homossexuais, enfim, manifestei minhas inquietações, desejos e interesses de produzir esse texto no Brasil. Convidei Reni Adriano para me dar suporte nos estudos do texto e em contato com a obra original de Didier Eribon decidimos fazer uma nova adaptação e, por um acaso outro monólogo. Entrei em contato com Didier Eribon e negociamos os trâmites devidos.

Rudinei Borges dos Santos – Uma das afirmações de impacto da versão de Reni Adriano exprime que “a subjetividade gay é uma subjetividade que se forma no insulto”. Pedro, a inserção de suas narrativas autobiográficas advém desse contexto de reafirmar uma subjetividade formada pelo insulto?

Pedro Vieira – A afirmação “a subjetividade gay é formada pelo insulto” é um conceito do próprio Eribon, e Reni teve a feliz sacada em começar seu trabalho de escritura do texto a partir desse conceito do livro Reflexões sobre a questão gay. Naturalmente a formação de minha subjetividade passa por esse conceito, assim como a de muitos gays. A excelência do romance de Eribon está na universalidade dos temas abordados, a única inserção dramatúrgica sobre minha vida está em forma de improviso na cena em que narro um momento da minha infância, de resto, o que parece ser pessoal é mérito da encenação e da qualidade da universalidade do texto, isso reforça a minha escolha em encená-lo.

Rudinei Borges dos Santos – Em que sentido, De volta a Reims dialoga com a multifacetada realidade brasileira atual em que o Supremo Tribunal Federal, a despeito da morosidade ou má vontade do poder legislativo do país, criminaliza a homofobia?

Pedro Vieira – Parece inacreditável que tenhamos que lidar com essa questão ainda hoje. Temos que considerar que essa medida do STF é extrema, um atendimento a um apelo de organizações civis, que denunciaram que o legislativo ignora a questão da homofobia, as mortes em decorrência da homofobia. O STF reconheceu que o legislativo foi negligente e resolveu ele mesmo colocar a homofobia como crime de racismo. O que esperamos é, se a aplicabilidade da lei se dará de fato.

Rudinei Borges dos Santos – Toda a montagem da peça está centrada no trabalho do ator, no que ela edifica com o duo voz-corpo. Em que consistiu o processo criativo da atuação? [Ninguém faz essa pergunta, mas me refiro às técnicas, treinamentos ou mesmo referências que compuseram o trabalho do ator].

Pedro Vieira – Nesse caso, podemos falar de parceria e colaboração em que toda a equipe abraçou o projeto. Depois da experiência bem sucedida com Cácia Goulart não hesitei em convidá-la novamente para esse processo, pois além de diretora é atriz e sabe o quão difícil é estar sozinho em cena. Ela me dirigiu no meu último monólogo, e ninguém melhor que ela para me provocar em novas experiências. Também vale ressaltar a inteligência cênica que a Cácia conduz o trabalho. No teatro é necessário repetição, muitas horas de ensaio, estudar a cena incansavelmente, buscando o tom, a ação, a respiração adequada, maneiras diferente de dizer o texto, exercícios diversos para encontrar em mim esse intelectual, essa sobriedade acadêmica de quem sabe e tem convicção do que está falando. A palavra é um dos elementos mais preciosos do espetáculo, e buscar esse entendimento do texto é imprescindível para a conexão com o espectador, buscar essa conexão custa o exercício da repetição.

Rudinei Borges dos Santos – Nos últimos anos, acompanhamos no Brasil o frequente aparecimento de solos, monólogos ou peças com um só ator [como queiramos denominar]. Seria esse fenômeno a tradução da grande dificuldade de obter condições razoáveis para montar peças com mais atores visto a ausência ou diminuição de editais públicos de apoio às artes cênicas ou é um traço cultural do nosso tempo de superestimação da individualidade? 

Pedro Vieira – Minha escolha passa pelo meu desejo de dizer o que acho importante ser dito. Em princípio, não tinha interesse em fazer um monólogo, e sim algum um texto que trouxesse algum tipo de reflexão, que me movesse artisticamente, mesmo porque produzir um monólogo não se gasta menos que num espetáculo com três atores. O valor de uma produção de teatro muda pouco sendo com um, dois ou três atores. Toda técnica envolvida é a mesma independentemente da quantidade de intérpretes. De qualquer forma, a falta de leis de incentivo, de editais públicos ou patrocínio é responsável pela inviabilização de montagens de um modo geral.

rudinei-borges-1Rudinei Borges dos Santos – Dramaturgo, poeta e ficcionista. Graduou-se em Filosofia. É doutorando e mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. É de sua autoria, pelo menos, 10 textos teatrais encenados em Angola e no Brasil, entre eles Dezuó, breviário das águas, indicado ao Prêmio Shell de Teatro, e Medea Mina Jeje, Transamazônica, Revolver e Luzeiros. Autor dos livros Epístola.40Memorial dos Meninos, Dentro é Lugar Longe e Chão de Terra batida. Em 2011, fundou o Núcleo Macabéa, da Cooperativa Paulista de Teatro, onde atua como diretor artístico e dramaturgo.